Nise Magalhães da Silveira

Item

Nome Completo

Nise Magalhães da Silveira

Sobrenome

SILVEIRA

Nome

Nise

Profissão

Médica psiquiatra

Áreas do Conhecimento

Ciências Biológicas

Instituição

Publicações e Obras

SILVEIRA, Nise da. Ensaios sobre a criminalidade das mulheres na Bahia. Salvador: Imprensa Oficial, 1926.
SILVEIRA, Nise da. Considerações teóricas e práticas sobre ocupação terapêutica. Revista Medicina e Cirurgia (194), 1-10, 1952.
SILVEIRA, Nise da. C. G. Jung e a psiquiatria. Revista Brasileira de Saúde Mental, 7, 1962.
SILVEIRA, Nise da. Terapêutica ocupacional: Teoria e prática. Rio de Janeiro: Casa das Palmeiras, 1966.
SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. Rio de Janeiro: José Álvaro Ed. 1968.
SILVEIRA, Nise da. Perspectiva da Psicologia de C. G. Jung. Revista Tempo Brasileiro, 21/22, 1970.
SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.
SILVEIRA, Nise da. Casa das Palmeiras. A emoção de lidar. Uma experiência em psiquiatria. Rio de Janeiro: Alhambra. 1986.
SILVEIRA, Nise da. 40 anos do Museu de Imagens do Inconsciente. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 41(4), p. 147, 1992.
SILVEIRA, Nise da. O mundo das imagens. São Paulo: Ática, 1992.
SILVEIRA, Nise da. Cartas a Spinoza. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1995.
SILVEIRA, Nise da. Gatos - A Emoção de Lidar. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 1998.

Referências

DA SILVEIRA, Nise.<strong>Imagens do inconsciente: com 271 ilustrações</strong>. Editora Vozes Limitada, 2017.
DA SILVEIRA, Nise. <strong>O mundo das imagens</strong>. Editora Vozes, 2024.
GULLAR, Ferreira. <strong>Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde</strong>. Paidós, 2024.
ESCOREL, Sarah. <strong>Mário Magalhães: desenvolvimento é saúde</strong>. Ciência & Saúde Coletiva, v. 20, p. 2453-2460, 2015.
MAGALDI, Felipe. <strong>Mania de liberdade</strong>: Nise da Silveira e a humanização da saúde mental no Brasil. SciELO-Editora FIOCRUZ, 2020.
MELO, Walter. <strong>Nise da Silveira</strong>. Vol. 4. Capa comum. 23 jul. 2001.
RAMOS, Graciliano. <strong>Memórias do cárcere</strong>. Editora Record, 2020.

Mais Informações

Palavras-chaves

Português psiquiatria
Português psicoterapia
Português arte

Foto Principal

Local de Nascimento

Nascimento

February 15, 1905

Falecimento

October 30, 1999

Frase

"O oposto da loucura não é a razão, é a sensibilidade."

Breve Resumo

Nise da Silveira foi uma psiquiatra brasileira que revolucionou o tratamento de pessoas com transtornos mentais ao substituir métodos agressivos. Foi pioneira no uso da arte e do afeto como formas de tratamento para pessoas com transtornos mentais.

Biografia

<strong>Laços familiares e formação acadêmica</strong>
A vida de Nise da Silveira foi marcada por uma incansável dedicação à humanização da psiquiatria. Pioneira na defesa dos direitos e da dignidade de pacientes com transtornos mentais, nasceu em 15 de fevereiro de 1905, em Maceió, Alagoas. Era filha de Faustino Magalhães da Silveira, jornalista e professor, e de Maria Lidia da Silveira, pianista. Em entrevista para Luiz Gonzaga Pereira Leal (1994) ela fala da sua infância [..]” fui felicíssima. Filha única. Mimadíssima. Minha mãe, musicista, tangenciando a genialidade. Meu pai, um homem que lia muito matemática e literatura. Ele tinha uma boa biblioteca. E sendo assim, li Machado de Assis muito cedo”.
Ambos tiveram papel fundamental em sua formação intelectual desde a infância. Estudou no colégio Santíssimo Sacramento, uma instituição voltada exclusivamente para meninas, em sua cidade natal. O pai de Nise desejava que ela fosse pianista como a mãe, porém ela não tinha grande interesse pelo instrumento e optou pela medicina. Nise ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1921, um feito notável para uma mulher naquela época e formou-se em 1926, sendo a única mulher de sua turma composta por 157 rapazes. (MAGALDI, 2020)
Foi morar em Salvador com Mário Magalhães da Silveira, primo e colega de turma na faculdade de medicina. O casamento foi oficializado tempos depois em 1940. O casal não teve filhos e permaneceu junto até o falecimento de Mário, em 1986. Mário Magalhães da Silveira formou-se em medicina e escolheu atuar como sanitarista, segundo Escorel (2015), "Mário Magalhães foi, por mais de vinte anos, o principal mentor da corrente de pensamento conhecida como sanitarismo desenvolvimentista". Mário foi um dos pioneiros do sanitarismo, corrente de pensamento que defendia o desenvolvimento econômico para a melhoria da saúde pública.
Em 1927, o pai de Nise faleceu, fato que motivou a sua mudança com o marido para o Rio de Janeiro. Ao chegar ao Rio de Janeiro iniciou amizade com artistas, escritores e militantes políticos. Em seu círculo de amizades estavam o escritor Manuel Bandeira e o diplomata Ribeiro Couto e, logo, Nise aproximou-se de lideranças do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1930, foi uma das poucas mulheres a assinar o <i>Manifesto dos Trabalhadores Intelectuais ao Povo Brasileiro</i>, o documento que defendia a luta dos trabalhadores contra a opressão e a miséria e realizava elogios à União Soviética como o país capaz de combater as mazelas das sociedades capitalistas (MAGALDI, 2020). Entretanto, foi expulsa do Partido Comunista Brasileiro por defender as ideias do <i>trotskismo</i>, movimento que defende as propostas do político e revolucionário ucraniano Leon Trótski, como revolução permanente e internacional.
Em 1933, ela foi aprovada em concurso público para trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, no Hospital da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro — um dos mais importantes centros psiquiátricos do Brasil na época. A instituição seguia o modelo psiquiátrico tradicional, com tratamentos como eletrochoque, lobotomia e insulinoterapia. A médica passou a desenvolver um olhar crítico sobre como os pacientes eram tratados.
No contexto da repressão política do governo Vargas, Nise foi presa em 1936, acusada de envolvimento com o comunismo. A denúncia partiu de uma funcionária do hospital onde trabalhava. O fato de possuir livros marxistas no local de trabalho foi uma das justificativas para o seu aprisionamento. Passou cerca de um ano no presídio Frei Caneca, onde teve contato com intelectuais como Graciliano Ramos (MAGALDI, 2020).
Em Memórias do Cárcere (1953), Graciliano Ramos narra o encontro dos dois, ocorrido entre 1936 e 1937, de forma comovente:
<cite>“Junto, à direita, além de uma grade larga, distingui afinal uma senhora pálida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Maceió, apresentou-se: – Nise da Silveira. Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queirós me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, num vivo constrangimento.” (RAMOS, Graciliano, Memórias do Cárcere, 1953, pág. 138)</cite>
Após a prisão, isolou-se por um tempo no interior da Bahia. A prisão criou em Nise uma nova visão de vida, passou a ter mania de liberdade, o que teve reflexos diretos na sua trajetória profissional. Retomou sua carreira em 1944, após oito anos distante da medicina, indo trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, atual Instituto Municipal Nise da Silveira. Foi nesse local que implementou abordagens inovadoras no tratamento psiquiátrico, criando a Seção de Terapêutica Ocupacional, com foco na expressão artística dos pacientes. Nise se opunha à lobotomia, ao eletrochoque e à insulinoterapia, práticas invasivas que impunham grande sofrimento aos internos (MAGALDI, 2019).
Nise sempre conviveu com animais e tinha muito carinho por eles, principalmente os gatos. Em entrevista a Leal (1994), ela falou sobre a relação com os animais: “Eu gosto muito de todos os animais. Admiro muito o cão. Me sinto humilhada diante do cão. Respeito o cão, porque o cão tem uma qualidade que eu acho belíssima e da qual eu me sinto distante, que é a infinita capacidade de perdoar [...] Com relação aos gatos, de tanto vê-los na rua desamparados, eu ia apanhando e trazendo para casa. Cheguei a ter 23 gatos.”

Os animais foram usados no processo da terapêutica ocupacional, atuando como coterapeutas. Gatos e outros animais estavam sempre presentes em seus locais de trabalho.
<strong>Atividade profissional e atuação</strong>
Atualmente, a psicoterapia tem como objetivo proporcionar saúde mental e contribuir para o enfrentamento de conflitos e sofrimentos dos pacientes. Nise revolucionou a psicoterapia no país: negou a aplicação do isolamento e métodos invasivos como tratamento e foi fundamental para a humanização do tratamento psiquiátrico no Brasil (MAGALDI, 2019).
Ela criou espaços de acolhimento e convivência para os pacientes, combatendo o modelo asilar que os isolava da sociedade. Seus ambientes terapêuticos priorizavam a individualidade, o convívio social e a expressão criativa por meio da arte, como a pintura e a modelagem. Tais atividades permitiam que os pacientes se comunicassem e se reconectassem com o mundo exterior.
Em 20 de maio de 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente (MII), destinado a preservar, estudar e divulgar as produções artísticas de pacientes em tratamento psiquiátrico. O acervo do museu tornou-se referência mundial, influenciando estudos sobre a relação entre criatividade e saúde mental e suas exposições destacam-se por sua proposta e inovação. Composto por telas, papéis, modelagens, textos e poemas feitas a partir do processo criativo e das atividades terapêuticas nos ateliês de pintura e modelagem das seções de terapia ocupacional, seu acervo, de mais de 400 mil obras, diariamente recebe conteúdos vindos dos ateliês terapêuticos. Os frequentadores dos ateliês convivem com os funcionários, co-terapeutas, estudantes, pesquisadores, visitantes e animais, um ambiente propício para liberdade de expressão e criatividade (MAGALDI, 2020).

Em 1954, Nise começa a se corresponder com Carl Gustav Jung e, em suas cartas, conta sobre as experiências no ateliê e envia fotografias das pinturas de seus pacientes. Jung passa a demonstrar interesse pelos trabalhos desenvolvidos por Nise nas práticas de terapia ocupacional.

No ano de 1956, Nise da Silveira funda a Casa das Palmeiras, localizada no bairro de Botafogo, um espaço de acolhimento para reabilitação de antigos pacientes de instituições psiquiátricas. O espaço funciona em regime aberto, os acolhidos podem transitar livremente pela instituição e são chamados de clientes ou participantes, o que reflete a autonomia e subjetividade de cada um. O método de tratamento adotado na instituição é a terapia ocupacional, as atividades são desenvolvidas livremente e cada acolhido pode participar conforme a sua vontade, incluindo pintura, desenho, modelagem, gravura, jardinagem, teatro, cinema e passeios (MAGALDI, 2019).

Em 1957, Nise foi estudar no Instituto Carl Gustav Jung, em Zurique. Os estudos no instituto foram divididos em dois períodos: a primeira ida foi de 1957 a 1958, e a segunda visita, de 1961 a 1962. Ela recebeu a colaboração de Marie-Louise Von Franz, assistente direta de Jung, nos estudos de psicoterapia e, segundo Melo (2001), o contato que estabeleceu nessas viagens abriram um novo campo de pesquisa e de reflexão teórica, impulsionando sua prática inovadora nos campos da psiquiatria e da arte brasileira.

O primeiro encontro de Nise da Silveira e Carl Gustav Jung foi em Zurique na exposição <i>A esquizofrenia em Imagens</i>, realizada pelo Museu de Imagens do Inconsciente no II Congresso Internacional de Psicologia. A exposição foi inaugurada por Jung em 2 de novembro de 1957, ocasião em que o médico suíço percorreu as obras na companhia de Nise da Silveira, que o acompanhava atentamente, ouvindo suas observações diante de cada quadro.

O encontro originou um relacionamento que permitiu a aplicação da psicologia junguiana no Brasil e proporcionou uma nova forma de compreender a psicose e as suas diferentes formas de expressão e manifestação, demonstrando que a arte era um importante mecanismo de demonstração das subjetividades do inconsciente e em como a terapia ocupacional pode ser aplicada a partir das descobertas de Jung. Nise passou a adaptar e aplicar as teorias de Carl Gustav Jung em seu trabalho, mais especificamente na terapia ocupacional. Contudo, as proposições feitas por Jung eram vistas por ela como hipóteses e não como verdades absolutas: “Nise costumava comparar as teorias psicológicas a instrumentos de trabalho, como ferramentas, e a que melhor se adequou à sua mão e ao seu campo de estudo foi a psicologia de Jung” (MELO, 2001).

Nise da Silveira era uma pesquisadora dedicada, especialmente, à psicologia de C. G. Jung. No início da década de 1950, decidiu aprofundar e difundir os estudos sobre as teorias de Jung no Brasil para quem estivesse interessado. Em 1968, em um encontro com o médico Nelson Bandeira de Mello, decidiu criar o grupo de estudos voltado para os métodos de Carl Jung, tendo sido presidente desse grupo até o ano de 1999.

Em 1975, aos 70 anos, Nise da Silveira aposentou-se compulsoriamente do serviço público. No entanto, manteve-se ativa, dedicando-se à preservação e ampliação do Museu de Imagens do Inconsciente. Sua atuação intelectual permaneceu incessante, englobando a escrita de livros, a produção de documentários, a curadoria de exposições e a coordenação de um grupo de estudos aberto ao público, realizado em sua própria residência (Magaldi, 2020).

A trajetória de Nise foi marcada pela sua capacidade de compreensão do ser humano. Ela foi pioneira em negar as práticas de tratamento da época e na criação de espaços de acolhimento, enxergando o afeto como uma mola propulsora em tudo (LEAL, 1994).

Em 1981, publicou o livro <i>Imagens do Inconsciente</i>, considerada uma de suas obras mais importantes. No mesmo ano, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia. Durante os anos 1980, engajou-se na luta antimanicomial, que defendia o fim das internações em massa e a integração dos pacientes à sociedade.
Nise da Silveira faleceu em 30 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro, aos 94 anos. Seu legado permanece vivo na psiquiatria humanizada, na terapia ocupacional e nas artes como instrumento de cura. Seu arquivo pessoal recebeu o Registro Internacional no Programa Memória do Mundo da UNESCO, consagrando sua contribuição à história da saúde mental e da cultura.

Prêmios e condecorações

• Ordem de Rio Branco no Grau de Oficial (1987);
• Título de doutor honoris causa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1988);
• Prêmio Ciccillo Matarazzo Personalidade do Ano (1992);
• Medalha Chico Mendes, do Grupo Tortura Nunca Mais (1993);
• Ordem do Mérito Educativo, pelo Ministério da Educação e do Desporto (1993).

Fotos

Créditos

Date Issued

November 19, 2025

Coleções

A monitora Nazareth e Nise no local onde foi desenvolvido seu trabalho pioneiro com animais Inauguração das novos instalações do museu em 1956 Nise na sala de trabalho de sua residência em 1977 Nise em exposição em homenagem a Isaac na sede do museu em 1966 Nise no centro psiquiátrico nacional em 1946 O café, no gabinete de Nise, no Museu de Imagens do Inconsciente, 1974 Vista do corredor da sede ocupada pelo Museu de Imagens do Inconsciente de 1956 a 1981 Nise no jardim do hospital onde desenvolveu pesquisa sobre a influência do mundo externo sobre a pintura dos clientes. Ao fundo, Fernando Diniz e Emygdio de Barros Fachada do Museu de Imagens do Inconsciente atualmente Nise em sua residência sede do grupo de estudos Grupo de estudos C.G Jung em 1975