Entrevista prof. Vanderlei Bagnato

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Conversa realizada no dia 21/07/2025, na sala do professor Bagnato, no IFSC-USP. Entrevistado: Vanderlei Salvador Bagnato; entrevistadora: Érica Silva Mendonça.

Vida pessoal

1) Quais são suas principais características, que te aproximam de um estudante?

Eu sempre tive vontade de fazer coisas desafiadoras e tive curiosidade pela natureza. Acho que muitas crianças têm isto também, e é preciso cultivar este hábito. Na minha trajetória, procurei entender fundamentos e aplicá-los. Ao exercer os dois tipos de ciência, me desafio e me sinto estimulado em deixar benefícios para o mundo. Costumo dizer que existem dois tipos de ciência: a que avança no conhecimento e a que aprendemos a aplicar para resolver problemas. Entendo que crianças e jovens também são capazes de se sentir estimulados, buscando aprender algo para guardar em seu repertório de conhecimento e para lidar com situações nas quais possam aplicar esses conhecimentos no dia a dia. As crianças gostam de desafios. Penso que, mesmo desde pequeno, todo mundo quer contribuir com o mundo, quer deixar um legado que beneficie a sociedade. Sempre estudei bastante, gostava de aprender e de ter aulas de ciência. Minha infância escolar foi maravilhosa com professores pelos quais desenvolvi admiração e respeito. Sou da geração que os pais diziam que temos que obedecer e respeitar os professores, mais que aos próprios pais.

Mas também já passei por alguns apertos. Tenho um certo grau de dislexia e, quando era pequeno, tive dificuldade com escrever corretamente. Fui aprendendo a lidar com isso. Por exemplo, sinto que, ao escrever com combinação de letra de forma e por extenso, consigo evitar alguns erros. Quando pequeno, escrevia uma parte da palavra sem terminá-la completamente, mas, ao reler minha escrita, lia a palavra inteira. Fui me adaptando, aprendendo a lidar com minhas dificuldades. Não deixei elas me barrarem. Se tinha dificuldade em alguma matéria da escola, me dedicava ainda mais até conseguir aprender. Não me intimidava com as dificuldades.

2) Em sua visão, quais foram os fatores que mais contribuíram para sua formação como cientista?

Tive uma família que me incentivava a ser bom, independentemente do que escolhesse fazer da vida. Meus pais sempre foram uma inspiração para mim, mesmo sendo pessoas com menor grau escolar, sempre souberam o valor da educação. Tive uma mãe dedicada; via meu pai ler livros, trabalhar... Era encantador. Observava um metal enferrujado se tornar brilhante e isso era fascinante para mim. Acho que a cromação de fundo de quintal de meu pai foi o maior impulso para minha carreira.

Também tive ótimos professores e sempre estudei em escola pública. Nunca paguei para estudar. Tive a sorte de meus professores estimularem os alunos com experimentos científicos todas as semanas. Apesar de fazer todas as brincadeiras de criança (e eu era levado), sempre dei valor à escola. Tudo isso, somado à minha vontade de aprender e ao estudo constante, me ajudou a seguir na formação como cientista.

Além disso, lembro que minha vida mudou quando meu pai comprou uma Enciclopédia Barsa, que foi paga em prestações. A Ciência Moderna ainda não existia. Tudo o que se sabe sobre eletrônica, mecânica quântica não estava lá. Eu olhava aquilo e ficava encantado com o que sabiam. A Ciência Moderna foi construída sobre algo. Se você ler a Enciclopédia Britânica antes de conhecer a Ciência Moderna, entenderá por quê.

Já na fase de adolescente, comecei a namorar minha atual esposa com 16 anos e ela 15 anos. Ela sempre foi também um arrimo e motivadora de meus desejos. Fomos para o exterior juntos, e até hoje estamos em uma batalha. Talvez a Silvia seja meu maior diploma.

3) Quais são seus hobbies e o que atrai sua atenção, para além da ciência?

Tudo me desperta curiosidade. Gosto de esportes, de jogar futebol, mas agora estou com um probleminha e não posso forçar. Até outro dia, jogava bola apesar de não ser um craque. Gosto de animais, especialmente cachorros; sempre tive cachorro na vida. Só não consigo ter muito tempo para cuidar, mas pelo menos estou trabalhando para mantê-los.

O mais que gosto? Gosto de coisas antigas. Na minha casa, há instrumentos velhos e máquinas antigas. Tenho até uma cadeira de barbeiro antiga que estou prometendo restaurar já faz anos. Quando era menino, gostava de montar e desmontar relógios antigos. Gostava tanto de relógios que até fiz o relógio atômico brasileiro com meus alunos e colaboradores, né?

Divulgador científico

4) O senhor é um divulgador científico, com uma coleção enorme de ações diferentes para alcançar públicos diversos. O que falta para o Brasil ser uma nação que não caia mais em fake news e que saiba buscar informação de qualidade?

Você nunca é velho demais para ser educado. Acho que falta um pouco de educação científica em nossa população. Por isso, fazemos divulgação para todas as idades. Nunca me esqueço de quando fui ao supermercado e uma pessoa me olhou e disse:

— "Você não é o professor Bagnato, que dá aquelas aulas na televisão?"

Disse que sim. E ela me respondeu:

— "Eu não entendo nada do que você fala, mas uma coisa você tem razão: para empurrar um guarda-roupa, se eu empurrar muito embaixo, não aguento de dor nas costas. Se empurrar em cima, ele tomba. Tenho que achar o ponto certo."

Alguma lição ela aprendeu, não é? Mesmo dizendo que não entendeu nada, compreendeu, na verdade, tudo!

Nem sempre entendemos o que vemos, e é por isso que a sociedade tem que continuar investindo na ciência e nos cientistas. A ciência traz benefícios. De alguma forma, a ciência está contribuindo. E o agente da ciência é o cientista. Governos e investidores são facilitadores.

Até mesmo para alguém ficar o dia inteiro no celular vendo baboseiras, é preciso ter investido antes em ciência. As fake news são uma forma de as pessoas conquistarem fama. Todos os dias inventam algo. E agora, com a inteligência artificial e o excesso de comunicação desorganizada, ficou pior. A comunicação desorganizada leva ao caos, né? Você para de raciocinar.

Então, para mim, falta educação científica. Deveríamos ter mais, até mesmo na cultura popular. Nunca vi uma novela em que o cientista aparecesse como um salvador. Assistia uma novela, O Clone, em que o cientista era o vilão e fazia coisas ilegais.

Temos que investir e incentivar uma cultura que valorize o cientista. Você tem que assistir filmes sobre a vida de cientistas. É muito bom ver a luta, os desafios. É bom contar sobre a vida do cientista. Acho que deveríamos ensinar história da ciências para as crianças.

5) Na sua opinião, atualmente precisamos priorizar uma divulgação científica diversificada e acessível, ou investir mais na construção do raciocínio e da lógica científica?

Acho que temos que dar informação e, junto, um pouquinho de formação. Na situação que citei, o guarda-roupa não tomba porque o esforço é compensado, não é? Quando você empurra no lugar certo, ele fica dando pulinhos, e você vence o atrito sem derrubá-lo. Se for lá embaixo, terá que fazer uma força muito maior, porque ele não vai pular. Nem sempre dá para ficar falando leis da física para todo mundo, expressando em argumentos matemáticos. Você tem que falar coisas que as pessoas entendem. Mas tudo tem que ter lógica. O ser humano é lógico. Ele só entende quando começa a conectar as coisas. Se for apenas informação, não introduzimos em nosso íntimo, e assim, não entendemos por completo.

6) É comum vermos crianças questionadoras, mas nem sempre percebemos adultos que mantiveram essa curiosidade ao longo da vida. Como podemos estimular o raciocínio e a observação científica em diferentes idades?

Acho que a criança questiona por que vê um vazio que quer preencher. Ela está em uma fase de construir seu repertório. O adulto já preencheu o dele, muitas vezes de forma errada. Às vezes, o adulto acha que já aprendeu o suficiente para viver. Um grande erro, pois renovamos nosso conhecimento a todo momento. Mas temos exemplos, como o da senhora do supermercado. Há muitos casos em que vemos pessoas, independentemente da idade, que sentem satisfação em entender algo que passaram a vida inteira sem compreender. A criança absorve rápido, pois é como uma biblioteca vazia. Ela tem curiosidade renovada.

Por isso, é preciso ensinar um pouco de ciência a todos e em todos os níveis. Não precisamos alfabetizar para ensinar. A criança consegue entender por que a água pode ser líquida e sólida, sendo a mesma substância. Isso dá para explicar. Ela brinca com água líquida, com gelo, com o vapor do banho. É uma brincadeira que faz todo dia e pode associar ao conhecimento a partir da própria experiência. Ela pode não saber explicar os fenômenos físicos complexos ou nomeá-los, mas, na cabecinha dela, faz sentido.

7) Tendo em vista suas experiências internacionais, quais lições podemos trazer da formação educacional científica de outros países para a popularização da ciência no Brasil?

Acho que o Brasil é um país fantástico. Sobrevivemos a tantas coisas. Mas temos que fazer as coisas de forma ordenada, com gestão de continuidade. Não podemos ter um governo que investe em ciência, cria museus, apoia pesquisadores, e depois outro que desmonta tudo. Precisamos de projetos de longo prazo para diferentes gerações. O conhecimento e a educação é um processo contínuo, e assim tem que ser as iniciativas para melhorias.

A ciência nos prepara para sermos cidadãos, não apenas cientistas. Em sociedades onde as pessoas sabem um pouco mais de ciência, onde são educadas para ter compromisso com a verdade, há menos corrupção. Aceitar a corrupção ou um ditador depende do grau de educação e discernimento entre verdade e mentira. Na minha opinião, a educação científica é um exercício de cidadania.

Se ensinarmos ciência nas comunidades menos favorecidas, o proveito será muito maior do que apenas incentivar esporte e cultura, que também são importantes. Acredito que, se educarmos cem crianças em ciência, pelo menos vinte poderiam seguir carreiras técnicas ou ter uma educação de qualidade.

Trajetória de pesquisador

8) Qual contexto político-social de sua trajetória pode ser considerado mais desafiador e que marcou a sua vida?

Sempre fui muito determinado. Como bom estudante de ciência, tinha uma "cara de comunista" quando jovem, mas nunca fui de grandes movimentos estudantis. Participava de movimentos estudantis, mas nunca fui líder. Sou da época da transição da ditadura para o estado civil. Vivi como universitário no final dos anos 1970, um momento muito difícil, em que colegas desapareceram, protestos foram combatidos e a classe estudantil tinha um grande papel no processo.

Eu estudava na Universidade Federal (UFSCar) e aqui (USP), então minha vida era estudar — fazia engenharia de materiais e física —, mas participava de assembleias estudantis e alguns movimentos. Já participei de passeatas. Fiz de tudo o que um estudante pode imaginar.

Eu era um “CDF” participativo. Sempre me dei bem com colegas e líderes estudantis e nunca me omiti. Lembro-me de quando Fernando Henrique Cardoso visitou São Carlos e deu uma palestra no ginásio de esportes. Achei que ele era inteligente e tinha potencial para fazer diferença. De fato, seu governo foi um marco na mudança de atitudes. Não importa sua ideologia; o que importa é usá-la, não para combater a oposição, mas para o progresso do país!

Outro momento marcante foi na década de 70. Foi uma época terrível. Lembro-me de uma passeata no centro da cidade, com militares nos cercando. Eu era um garoto de 19 anos e me sentia como em uma guerra. Não queria morrer. Quero morrer contribuindo para uma causa forte, que, para mim, é a ciência. Os anos de 1977 e 1978 foram difíceis socialmente. Mas ninguém desanimou. Você não constrói um país só mudando o regime político. É preciso criar perspectivas e uma sociedade forte.

Teve também uma manifestação no centro de São Carlos, onde fomos encurralados pelo exército. Descíamos a Rua 15 de Novembro quando lançaram bombas de gás. Houve queimados, confusão, feridos.... Estávamos perto e entramos na USP. Naquele momento, vi nossos professores e seu verdadeiro valor: vieram socorrer os estudantes com seus carros, levando-os para a Santa Casa. Foi marcante. Aprendi que os professores nos ensinavam não apenas as matérias, mas uma posição de vida e inserção na sociedade.

Mas, de todo modo, sempre fui mais científico do que político. Embora nenhum cidadão consiga viver em sociedade sendo totalmente apolítico. Você tem que participar e dar seu melhor.

9) O senhor é membro de academias que podem ser consideradas antagônicas, como a Academia do Vaticano e as academias de pesquisa científicas. Em sua percepção, onde a visão científica se aproxima da religião e onde elas se distanciam?

Sou cristão porque acho que não basta não fazer o mal; é preciso fazer o bem. Mas é um engano achar que a Academia do Vaticano é religiosa. Ela foi fundada por Galileu Galilei e é a academia de ciência mais antiga. Tem hoje 48 prêmios Nobel em suas cadeiras. Até pouco tempo, eu era o único católico lá. Stephen Hawking (já falecido) era membro e começava suas palestras dizendo que "Deus é um conceito que não é necessário para a natureza", e ninguém reclamava. A maioria dos membros não é católica. Nem por isso a academia deixou de existir e contribuir. Ela é histórica e sua importância transcende mesmo a igreja católica.

Ela existe para dizer o que a ciência traz como verdade, partindo do princípio de que não fazemos ciência do espírito, mas da matéria. Não ficamos rezando nas sessões — até porque a maioria nem sabe rezar. Então, não é antagônico.

Como cheguei lá? Não sei responder. Acho que foi por uma palestra em que falei sobre a responsabilidade social da ciência. Algumas autoridades brasileiras sabem que, além de cientista, valorizo a vertente social das coisas. Também fui muito motivado a aceitar a posição pelo Prof. Sérgio Mascarenhas. Este foi um grande líder.

É uma sorte estar lá, poder entrar no Vaticano e conversar com essa audiência. Mas eles estão interessados em ciência! Ciência que faz diferença para o ser humano, não apenas que avança no conhecimento. Eles querem ciência relevante, que vença grandes desafios. Atualmente, os grandes desafios são saúde e meio ambiente.

Me considero um cientista com responsabilidade social e com um grande senso de dever para com a humanidade. Não importa que meu nome não seja lembrado. Os meus filhos e meus alunos, pelo meu trabalho sério e responsável, irão me tornar imortal.

 

Título
Entrevista prof. Vanderlei Bagnato
Definição da Entrevista
Entrevista com Entrevista com professor Vanderlei Bagnato
Entrevistado
Professor Vanderlei Bagnato
Entrevistador
Érica Mendonça
Texto da Entrevista
Entrevista Vanderlei Bagnato
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