-
Lilia Katri Moritz Schwarcz <strong>Origens familiares e herança intelectual: primeiros passos</strong>
A história não é apenas a lembrança do que já passou. Ela é viva e dinâmica, feita no presente, quando os historiadores revisitam memórias, interpretam documentos e organizam vozes. Não é mera cronologia, mas uma construção humana atravessada pela subjetividade e pela memória. É nesse horizonte que se inscreve a trajetória de Lilia Schwarcz.
Lilia Katri Moritz Schwarcz – Lili, para os amigos – nasceu em 27 de dezembro de 1957, na cidade de São Paulo. Sua família, de origem judaica francesa e italiana, emigrou para o Brasil fugindo do nazismo (Oliveira, 2024). Ela conta, com admiração, sobre a importante atuação dos avós no acolhimento de imigrantes vítimas da guerra e da luta da tia Hella pela recuperação de bens de famílias judias roubados pelo nazismo (Schwarcz, 2019b).
A afinidade de Lilia com antropologia e história surgiu, em parte, com a mãe, formada em ciências sociais, e com livros dessas áreas que herdou de seus avôs. Sua passagem pelo Colégio Vocacional — escola experimental da rede pública, politizada e voltada à inclusão social por meio da igualdade de oportunidades — também foi decisiva para sua formação intelectual (Schwarcz, 2019b). Ela recorda ainda que a militância da tia Hella despertou nela o entusiasmo por ciências sociais e história desde jovem (Schwarcz, 2019b).
<strong>Entre a história e a antropologia: formação acadêmica e produção intelectual</strong>
O interesse e a sensibilidade para questões da memória viraram escolha profissional: Lilia formou-se em história na Universidade de São Paulo (USP). Ela confessa, porém, que sua entrada para a história foi fruto de um equívoco. Conta que, no momento da inscrição para o vestibular, pensou ter escolhido ciências sociais (Schwarcz, 2014). Espantou-se, contudo, ao ver que havia sido aprovada para história, que não havia sido sua primeira opção, e foi à universidade resolver a confusão. Lá um funcionário lhe disse para dar uma chance ao curso apesar do engano, pois ela poderia gostar. Dito e feito: Lilia acabou entrando para a história e de lá nunca mais quis sair.
Hoje, Schwarcz habita confortavelmente um lugar entre a história e a antropologia (Schwarcz, 2014). Ela afirma, contudo, que no início foi difícil atuar nessa fronteira, fazendo o que ela chama de etno-história ou história antropológica: “uma história atenta não só à mudança, mas também ao que fica” (Schwarcz, 2025).
Suas pesquisas de mestrado e doutorado em Antropologia Social são interdisciplinares e carregadas da perspectiva histórica. Investiga questões de raça e representação social, usando a imprensa e produções científicas do século XIX como fontes principais. Para Schwarcz, a construção histórica da sociedade brasileira e das suas desigualdades é fundamentada em questões raciais.
Ela mostra que, na história do país, especialmente em meados do século XIX e início do XX, muitos cientistas e intelectuais usaram argumentos científicos para justificar diferenças e desigualdades entre as pessoas. Criaram teorias ligando características físicas, como cor da pele e traços biológicos, a questões sociais como raça e gênero. Desse modo, fizeram parecer que era <i>natural</i> e <i>cientificamente justificado</i> que algumas pessoas ocupassem certos lugares na sociedade, enquanto outras fossem mantidas à margem.
Schwarcz analisa como essas teorias foram usadas para apoiar o racismo e tornar tais diferenças socialmente aceitas, e como tudo isso serviu para reforçar a ideia de que alguns grupos — principalmente homens, brancos, cisgêneros e heterossexuais — têm mais direitos e privilégios do que outros. Seus estudos ajudam a entender de onde vêm as desigualdades que ainda existem no Brasil, e por que é necessário questionar as ideias preconceituosas que se apresentam como ciência.
Das pesquisas acadêmicas às postagens nas redes sociais, Schwarcz chama atenção para a centralidade da discussão sobre raça na sociedade brasileira. Reitera constantemente que é crucial compreender o papel das relações raciais na constituição da nossa sociedade e na manutenção de desigualdades e injustiças.
<strong>Vida pessoal e parceria com Luiz Schwarcz</strong>
Muitos trabalhos de Lilia sobre essas questões já foram publicados pela Companhia das Letras, editora que ela fundou em parceria com Luiz Schwarcz, seu esposo.
Juntos no trabalho e no amor, os dois se conheceram muito novos. Quando tinha 12 anos, Lilia fez amizade com Luiz, colega da colônia de férias. Nessa época, ela foi cupido para o então amigo: “fui a <i>matchmaker</i> dele com uma outra pessoa”, ela relata bem-humorada (Schwarcz, 2019b).
Durante o ensino médio, já mais velhos, Lilia e Luiz se reencontraram e, desde então, nunca mais se separaram (Schwarcz, 2019b). Casaram-se, tiveram dois filhos e fundaram, juntos, uma editora de grande sucesso nacional responsável pela edição de relevantes obras da literatura brasileira de ficção e não-ficção.
Inúmeras obras de Schwarcz já foram lançadas sob o selo da Cia das Letras. A mais recente, <i>Imagens da branquitude: A presença da ausência</i> (2024), venceu o prêmio Jabuti Acadêmico de História e Arqueologia de 2025. O livro é fruto de anos de investigação sobre o uso de imagens como fontes históricas para compreender a construção de identidades e desigualdades sociais. Seu dedicado estudo sobre imagens mostra que elas não são mera decoração, pois elas produzem valores e significados (Schwarcz, 2025). No livro premiado, assim como em outros trabalhos, Lilia mostra como é possível “ler” imagens.
Também publicado pela editora, em 1993, o livro de Schwarcz <i>O espetáculo das raças</i> é considerado marco nos estudos sobre a construção científica do racismo no Brasil entre 1870 e 1930.
Outro título notável é <i>Brasil: Uma biografia</i> (2015), produzido em parceria com a historiadora Heloísa M. Starling. O Brasil é tratado como personagem de um enredo histórico-biográfico, elaborado a partir da análise de fontes históricas e perguntas do presente (Schwarcz e Starling, 2025).
<strong>Reconhecimento, prêmios e papel público</strong>
Reconhecido nacional e internacionalmente, o trabalho de Schwarcz combina o rigor científico com uma escrita clara e descomplicada. Transforma temas difíceis em leitura agradável, acessível a estudiosos especializados e ao grande público. Sua linguagem – fluida e didática – aproxima o leitor de questões essenciais da nossa história.
Por seu singular talento, Schwarcz recebeu prestigiosos prêmios literários, como o Jabuti de Ciências Humanas (2022) pela obra <i>Enciclopédia Negra</i>, em co-autoria com Flávio dos Santos Gomes. Nela, trajetórias de personalidades negras apagadas pela historiografia hegemônica ganham visibilidade. Em 2023, foi vencedora do Jabuti de Literatura Juvenil com o livro <i>Óculos de cor</i> (2022), em que escreve para crianças sobre seus temas de estudo, em especial, a branquitude e o racismo estrutural no Brasil.
Schwarcz também atuou como curadora de histórias de aclamadas exposições de arte, como a emblemática <i>Histórias Afro-Atlânticas</i> (2018), promovida pelo MASP. A mostra, que integra uma série de projetos e exibições em torno de diferentes histórias, foi bem recebida no circuito artístico nacional e internacional, ganhando o título de melhor exposição do ano pela Associação Brasileira de Críticos de Arte. O impacto da exposição confirmou a força da abordagem interdisciplinar do trabalho de Schwarcz, capaz de articular história, artes visuais e política da memória por meio de diferentes linguagens.
Pela contribuição de seus estudos e atuação pública para a sociedade no desenvolvimento da cultura, ciência, tecnologia e inovação no Brasil, Schwarcz recebeu do governo a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico, em 2010, e a Comenda da Ordem de Mérito Cultural, em 2025.
Em 2024, Lilia Schwarcz foi eleita para integrar a Academia Brasileira de Letras. Ela reconhece que a ABL é um lugar de privilégios (Schwarcz, 2024a): em mais de um século de existência, a instituição teve apenas 13 membros mulheres. A composição da Academia reflete o desequilíbrio de oportunidades da nossa sociedade: poucas mulheres, pessoas negras, pretas e pardas, ainda menos indígenas e representantes de povos originários.
Apesar disso, a nomeação de Schwarcz foi mais um passo na direção da diversidade e da inclusão de vozes plurais na cultura nacional. A ABL reconhece a aptidão de Lilia à luta por uma sociedade mais justa e igualitária, e destaca a importância de seus estudos sobre a história do Brasil e sua presença pública enquanto cientista, educadora e cidadã.
Ao longo de sua trajetória, Schwarcz não deixou de rever posições. Em 2006, foi uma das signatárias do Manifesto Contra as Cotas Raciais, mas, posteriormente, retratou-se publicamente, reconhecendo a importância das cotas como ação afirmativa para enfrentar desigualdades históricas (Schwarcz, 2019a). A reflexão aprofundou seu interesse no tema da branquitude e na necessidade da autocrítica do lugar de fala de estudiosos brancos.
Como afirma o filósofo e historiador Michel de Certeau, um dos pilares da pesquisa é o local de produção de onde fala o pesquisador. Isso significa que é essencial a todo cientista ter consciência de seu lugar na sociedade, para entender suas motivações e conhecer as limitações e possibilidades que circunscrevem sua pesquisa.
O episódio de retratação pública de Schwarcz é representativo de como o conhecimento é construído. Em qualquer área, a ciência deve ser aberta ao debate. O embate de ideias não a deixa falsa ou frágil; pelo contrário: o intercâmbio entre pares e a possibilidade de rever certas práticas tornam o conhecimento científico verídico e verdadeiramente alinhado à realidade, sempre dinâmica. Isso, a longo prazo, é muito positivo (Schwarcz, 2022).
Hoje o olhar de Schwarcz é muito mais atento a questões que antes passavam despercebidas, justamente por estarem naturalizadas em nossa sociedade. A branquitude, ela explica, sempre refletiu sobre o outro, mas nunca sobre si, o que afetou negativamente a estruturação do conhecimento (Schwarcz, 2022).
Quando pesquisadores brancos não questionam seu próprio lugar, deixam de identificar e abordar diversos problemas em suas pesquisas. A autorreflexão e a autocrítica são, por isso, processos necessários para a efetiva transformação não só do meio acadêmico, mas da sociedade em geral.
Schwarcz entende que, para alcançar essa mudança, precisa ouvir e ecoar as vozes e vivências de outros indivíduos. Os debates que promove em sala de aula contam com bibliografias de estudiosos e ativistas como Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento e Sueli Carneiro, que há muitos anos denunciam esses mesmos conflitos sociais (Schwarcz, 2022). A atuação de Schwarcz soma aos esforços deles e tantos outros no combate às injustiças históricas.
<strong>Compromisso com o debate público e a educação: legado e contribuição para a sociedade</strong>
Lilia Schwarcz é uma grande notável no meio acadêmico, atuando como professora do Departamento de Antropologia da USP, e Global Scholar em Princeton. Recentemente, passou a marcar presença também na internet, produzindo conteúdos no YouTube e em seu podcast. Neles, discute assuntos da atualidade e da história descontraidamente, sem abrir mão do cuidado com a informação característicos de uma grande cientista. Uma voz como a dela, que une seu lugar de pesquisadora e figura pública para divulgar conhecimento científico, é crucial no combate à desinformação, sobretudo, no mundo digital contemporâneo.
Com a seriedade metodológica das ciências e uma linguagem acessível para diversos públicos, Schwarcz discute e se posiciona publicamente sobre temas fundamentais de nossa história, como escravidão, questões raciais e autoritarismo. Sua perspectiva científica interdisciplinar oferece relevantes contribuições para o debate sobre o Brasil, ampliando nosso entendimento sobre as estruturas sociais, culturais e políticas de nosso país.
Para ela, a ciência, assim como a educação, são pilares de um país mais democrático, e por essa razão devem sempre andar juntas. Por isso, Lilia se apresenta orgulhosamente como mulher educadora e cientista, e defende com firmeza a educação pública de qualidade nas escolas e universidades. É por meio da educação e da ciência que chegamos à verdade e à boa informação, nossas principais armas contra o negacionismo e a desinformação (Schwarcz, 2025).
Schwarcz define seu ofício de historiadora como de um “mercador do tempo", que “volta aos mesmos contextos com perguntas novas [...], do seu momento” (Schwarz, 2020). O passado é dinâmico e está em constante transformação: modifica-se à medida que mudam as questões do presente. Schwarcz é essa navegante de tempos que, sensível aos desafios de seu presente, olha para o passado atenta e motivada a contribuir na produção de conhecimento sobre o mundo em que vive.
Com timidez e modéstia, Lili reluta em aceitar seu merecido lugar no panteão de notáveis cientistas brasileiros. Reconhece, porém, que a geração da qual ela faz parte tem um legado de inegável relevância: é responsável por renovar a historiografia e a antropologia no Brasil, enfatizando o estudo da perversidade do regime escravocrata e o protagonismo de pessoas escravizadas. Ao invés de vê-las apenas como vítimas, essa historiografia – em grande parte produzida por intelectuais negros – evidencia sua agência, rebeliões e insurreições individuais e coletivas. Ao mesmo tempo, ela observa que a antropologia brasileira projetou o pensamento ameríndio e o perspectivismo para além das fronteiras nacionais, fazendo com que sua geração tenha impacto significativo também nos debates internacionais da disciplina.
Lilia Schwarcz é uma pesquisadora que integra rigor acadêmico, compromisso social e capacidade de comunicação pública. Oferece à sociedade instrumentos de reflexão sobre o presente ao revisitar temas pungentes como escravidão e racismo. Sua atuação exemplifica o papel social da ciência: produzir conhecimento crítico, preservar a memória histórica e participar do debate público para a construção de uma sociedade mais justa.
Seus estudos contribuem enormemente para a sociedade brasileira, demonstrando como é imprescindível conhecer e questionar de forma crítica o passado, para transformar o presente e propor novos futuros.
-
Nise Magalhães da Silveira <strong>Laços familiares e formação acadêmica</strong>
A vida de Nise da Silveira foi marcada por uma incansável dedicação à humanização da psiquiatria. Pioneira na defesa dos direitos e da dignidade de pacientes com transtornos mentais, nasceu em 15 de fevereiro de 1905, em Maceió, Alagoas. Era filha de Faustino Magalhães da Silveira, jornalista e professor, e de Maria Lidia da Silveira, pianista. Em entrevista para Luiz Gonzaga Pereira Leal (1994) ela fala da sua infância [..]” fui felicíssima. Filha única. Mimadíssima. Minha mãe, musicista, tangenciando a genialidade. Meu pai, um homem que lia muito matemática e literatura. Ele tinha uma boa biblioteca. E sendo assim, li Machado de Assis muito cedo”.
Ambos tiveram papel fundamental em sua formação intelectual desde a infância. Estudou no colégio Santíssimo Sacramento, uma instituição voltada exclusivamente para meninas, em sua cidade natal. O pai de Nise desejava que ela fosse pianista como a mãe, porém ela não tinha grande interesse pelo instrumento e optou pela medicina. Nise ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1921, um feito notável para uma mulher naquela época e formou-se em 1926, sendo a única mulher de sua turma composta por 157 rapazes. (MAGALDI, 2020)
Foi morar em Salvador com Mário Magalhães da Silveira, primo e colega de turma na faculdade de medicina. O casamento foi oficializado tempos depois em 1940. O casal não teve filhos e permaneceu junto até o falecimento de Mário, em 1986. Mário Magalhães da Silveira formou-se em medicina e escolheu atuar como sanitarista, segundo Escorel (2015), "Mário Magalhães foi, por mais de vinte anos, o principal mentor da corrente de pensamento conhecida como sanitarismo desenvolvimentista". Mário foi um dos pioneiros do sanitarismo, corrente de pensamento que defendia o desenvolvimento econômico para a melhoria da saúde pública.
Em 1927, o pai de Nise faleceu, fato que motivou a sua mudança com o marido para o Rio de Janeiro. Ao chegar ao Rio de Janeiro iniciou amizade com artistas, escritores e militantes políticos. Em seu círculo de amizades estavam o escritor Manuel Bandeira e o diplomata Ribeiro Couto e, logo, Nise aproximou-se de lideranças do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1930, foi uma das poucas mulheres a assinar o <i>Manifesto dos Trabalhadores Intelectuais ao Povo Brasileiro</i>, o documento que defendia a luta dos trabalhadores contra a opressão e a miséria e realizava elogios à União Soviética como o país capaz de combater as mazelas das sociedades capitalistas (MAGALDI, 2020). Entretanto, foi expulsa do Partido Comunista Brasileiro por defender as ideias do <i>trotskismo</i>, movimento que defende as propostas do político e revolucionário ucraniano Leon Trótski, como revolução permanente e internacional.
Em 1933, ela foi aprovada em concurso público para trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, no Hospital da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro — um dos mais importantes centros psiquiátricos do Brasil na época. A instituição seguia o modelo psiquiátrico tradicional, com tratamentos como eletrochoque, lobotomia e insulinoterapia. A médica passou a desenvolver um olhar crítico sobre como os pacientes eram tratados.
No contexto da repressão política do governo Vargas, Nise foi presa em 1936, acusada de envolvimento com o comunismo. A denúncia partiu de uma funcionária do hospital onde trabalhava. O fato de possuir livros marxistas no local de trabalho foi uma das justificativas para o seu aprisionamento. Passou cerca de um ano no presídio Frei Caneca, onde teve contato com intelectuais como Graciliano Ramos (MAGALDI, 2020).
Em Memórias do Cárcere (1953), Graciliano Ramos narra o encontro dos dois, ocorrido entre 1936 e 1937, de forma comovente:
<cite>“Junto, à direita, além de uma grade larga, distingui afinal uma senhora pálida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Maceió, apresentou-se: – Nise da Silveira. Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queirós me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, num vivo constrangimento.” (RAMOS, Graciliano, Memórias do Cárcere, 1953, pág. 138)</cite>
Após a prisão, isolou-se por um tempo no interior da Bahia. A prisão criou em Nise uma nova visão de vida, passou a ter mania de liberdade, o que teve reflexos diretos na sua trajetória profissional. Retomou sua carreira em 1944, após oito anos distante da medicina, indo trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, atual Instituto Municipal Nise da Silveira. Foi nesse local que implementou abordagens inovadoras no tratamento psiquiátrico, criando a Seção de Terapêutica Ocupacional, com foco na expressão artística dos pacientes. Nise se opunha à lobotomia, ao eletrochoque e à insulinoterapia, práticas invasivas que impunham grande sofrimento aos internos (MAGALDI, 2019).
Nise sempre conviveu com animais e tinha muito carinho por eles, principalmente os gatos. Em entrevista a Leal (1994), ela falou sobre a relação com os animais: “Eu gosto muito de todos os animais. Admiro muito o cão. Me sinto humilhada diante do cão. Respeito o cão, porque o cão tem uma qualidade que eu acho belíssima e da qual eu me sinto distante, que é a infinita capacidade de perdoar [...] Com relação aos gatos, de tanto vê-los na rua desamparados, eu ia apanhando e trazendo para casa. Cheguei a ter 23 gatos.”
Os animais foram usados no processo da terapêutica ocupacional, atuando como coterapeutas. Gatos e outros animais estavam sempre presentes em seus locais de trabalho.
-
Vanderlan da Silva Bolzani <strong>Origem e motivações</strong>
Santa Rita, cidade histórica, pioneira dos engenhos canavieiros e conhecida como “cidade das águas minerais”, na região metropolitana de João Pessoa, na Paraíba, foi onde nasceu Vanderlan. Primogênita dentre cinco irmãs e um irmão, filha de Maria de Lourdes Alves de Oliveira, uma descendente de portugueses que se casou com um descendente de indígenas, provavelmente do povo Tabajara, Severino José da Silva, conhecido como Tubira. Seu pai, mecânico autodidata de motores a diesel, desde cedo, exerceu influência sobre o amor de Vanderlan pela natureza e, segundo ela própria constatou, anos mais tarde, o ativismo da origem indígena dele certamente contribuiu para suas escolhas futuras de estudar a Ciência Natural. A mãe bordava colchas, vestidos e fazia à mão bordados portugueses, para ajudar no orçamento familiar. Seus pais priorizavam a educação formal dos filhos e se empenhavam em proporcionar estudo de qualidade para todos (Moura; Zorzetto, 2014; QuiMinas, 2020; Lima, 2025).
Quando Vanderlan tinha 6 anos de idade, sua família se mudou para a Praia Formosa, em Cabedelo, PB, em razão do trabalho de seu pai, como supervisor de obras do quebra-mar. Mesmo tendo sido por um breve período, o lugar despertou na menina santa-ritense uma grande paixão pela Natureza e atiçou sua curiosidade em torno do ambiente que a cercava, desencadeando questionamentos sobre o mar, o vento e as plantas. Ali foi alfabetizada, à beira-mar, na Escola da Colônia de Pescadores (Bolzani, 1996).
Estudiosa, irrequieta, responsável e persistente, Vanderlan tinha um comportamento fora do padrão desde muito pequena. Não gostava de brincar de casinha ou de bonecas. Gostava mesmo era das brincadeiras de menino, como bolinhas de gude, que a intrigavam sobre os fenômenos do movimento. Certa feita, queria participar de uma procissão vestida de vermelho, sendo contrariada pela mãe e obrigada a usar um vestido rosa. Pela cor preferida e intensidade nas atitudes, foi apelidada pelos íntimos de “Pimenta” (Bolzani, 1996; QuiMinas, 2020).
A infância foi intensa e feliz, ao lado dos pais e dos cinco irmãos, entre brincadeiras de infância no mar, pescarias em família e constantes visitas ao sítio dos avós paternos, Francisco Ferreira Maia e Severina Cosma Generosa, a doce e carinhosa Dindinha, descendente de indígena, com quem a menina Vanda – apelido de criança – aprendeu a importância de se respeitar a natureza e preservá-la. Com ela, Vanderlan aprendeu sobre plantas “do bem” e “do mal” em passeios exploratórios pelo mato, junto com os irmãos. Nesses passeios, Vanderlan, muito atenta e curiosa, ficava ao lado da avó, perguntava tudo e queria saber detalhes.
A sucessão de “chamados da natureza” se repetia com frequência ao longo de sua trajetória e Vanderlan relata isso com orgulho e prazer. Relembra com carinho a pintura corporal que a Dindinha fazia nos netos com pigmentos naturais extraídos de plantas como urucum, em abundância no sítio (Lima, 2025).
-
Vanderlei Salvador Bagnato Vanderlei Bagnato é um daqueles raros cientistas que se empenha tanto em realizar estudos de ciência básica, como de pesquisas aplicadas. No caso dele, isso significa pesquisar desde a física pura de átomos e luz, até aplicações diretas que podem trazer melhorias para a sociedade. Esta amplitude de conhecimentos, de dedicação à ciência, em conjunto com sua personalidade simples, cheia de energia e de participação social, contribuem para que ele seja atualmente um dos cientistas brasileiros mais renomados.
Nascido em 28 de setembro de 1958, em São Carlos, interior de São Paulo, Vanderlei Salvador Bagnato é filho de Walter e Antonia Italiano Bagnato, descendentes de imigrantes italianos. Durante a sua infância e juventude, gostava de andar pelas ruas da cidade com sua bicicleta, uma bola debaixo dos braços, e de nadar com os amigos na piscina municipal (Bagnato, 2022; Chicrala, 2022).
Desde cedo demonstrou interesse pela ciência. Vanderlei se encantava ao ver os processos físicos e químicos realizados por seu pai, na oficina no fundo de casa, enquanto praticava galvanoplastia - procedimento que reveste um objeto metálico com uma fina camada de outro metal, através de um método eletroquímico (AmbiScience,s/d). Naquela época ele também gostava de se desafiar, desmontando e montando diferentes objetos eletrônicos (Bagnato, 2015, 2022).
Este espírito curioso de Vanderlei o levou a participar, com treze anos de idade, de encontros de jovens cientistas promovidos pelo Funbec/Ibec e pela Unesco. Logo que terminou o ensino médio, decidiu ingressar em um curso superior e se tornar cientista. No início estava em dúvida, se preferia cursar Física ou Engenharia de Materiais. Por este motivo, resolveu prestar vestibular nas duas universidades públicas da cidade e realizou os dois cursos simultaneamente, algo que naquela época era permitido (Bagnato, 2022, 2025a,b; Chicrala, 2022).
Assim, em 1977, iniciou o curso de Física na Universidade de São Paulo (USP) e de Engenharia de Materiais na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), concluindo ambos os cursos em 1981. Logo após terminar a graduação em física, ingressou no mestrado, no Instituto de Física da USP (IFSC), pesquisando propriedades ópticas de cristais inorgânicos. Nesta mesma época, foi convidado para ser professor do IFSC (Bagnato, 2022; 2025a; ABC, s/d).
Foi também nesta etapa de sua vida que Vanderlei se casou com Silvia Mara Firmino, com quem namorava desde os 15 anos de idade e para quem dedica sua trajetória e premiações. Após concluir o mestrado, iniciou seu doutorado nos Estados Unidos (<i>Massachusetts Institute of Technology - MIT</i>), sob orientação de David E. Pritchard. Sua pesquisa foi pioneira, sendo a primeira tese publicada sobre o tema “resfriamento e aprisionamento de átomos”. Durante esse período, compartilhou o ambiente de trabalho com pesquisadores que, tempos depois, foram premiados com o Nobel de Física, como Eric Allin Cornell, Wolfgang Ketterle e William Daniel Phillips (Bagnato, 2022, 2025 a,c; Chicrala, 2022).
Retornando ao Brasil, em 1988, Vanderlei montou seu laboratório no IFSC, conduzindo pesquisas em átomos frios e condensação de Bose-Einstein. Átomos frios são átomos que são mantidos em temperaturas próximas a 0 kelvin (zero absoluto), situação na qual se pode estudar as propriedades da mecânica quântica do átomo. Por sua vez, o condensado de Bose-Einstein é a fase da matéria formada por bósons, quando a temperatura fica muito próxima do zero absoluto. Além de montar este laboratório, Vanderlei liderou a construção do primeiro relógio atômico da América Latina, o que lhe rendeu o Prêmio Nacional de Metrologia (Fapesp, 1996; ABC, 201?; Chicrala, 2022; Condensado de Bose-Einstein, 2025).
Contudo, o professor Vanderlei Bagnato não se ateve apenas aos estudos de física atômica e, pouco depois, ampliou o tema de pesquisa incluindo a biofotônica. A biofotônica é uma área interdisciplinar que combina a biologia e a física, buscando investigar a interação entre os sistemas biológicos e a luz. Ela envolve o uso de tecnologias ópticas avançadas para estudar e manipular processos biológicos em níveis moleculares e celulares. Vanderlei descreve a complementariedade de se estudar a física atômica e a biofotônica, dizendo que através da física atômica, ele pode observar a interação dos átomos entre si e a forma como as moléculas “conversam” entre elas. Já com a biofotônica, é possível utilizar a luz para investigar, interagir e até interferir em átomos e moléculas (Barbaresco, 2025; Bagnato, 2015, 2025c; Biofotônica, 2025; Sintra, Geraldo, 2024).
Utilizando estes ramos de investigação, Vanderlei escolheu dar atenção a áreas desafiadoras, tais como: câncer, infecções e doenças crônicas associadas à dor (como o mal de Parkinson, diabetes, fibromialgia e artrose). Atualmente, estes conhecimentos vêm sendo aplicados em diferentes tratamentos que podem, por vezes, curar, ou auxiliar na reabilitação e minimização de efeitos graves, proporcionando bem-estar para diversas pessoas. A partir de seus conhecimentos e, vendo a necessidade de aplicação social, Bagnato uniu mais uma vez a formação de físico a de engenheiro de materiais para desenvolver mais de 50 produtos, além de iniciar um parque empresarial com mais de 40 empresas em São Carlos (ABC, s/d; Bagnato, 2025b,c; G1, 2021).
Com estas pesquisas, atualmente, Vanderlei Bagnato é reconhecido como sendo um dos principais cientistas nas áreas de Física Atômica e Biofotônica. Academicamente, ele já publicou mais de 1.000 artigos, orientou mais de 150 teses de mestrado e doutorado e supervisionou mais de 80 pesquisadores de pós-doutorado. Os reconhecimentos da contribuição dele para a ciência têm sido expressos através de premiações, bem como de convites de participação em diferentes academias científicas (Bagnato, 2025a,b; G1, 2021).
Ao longo dos anos, Vanderlei Bagnato recebeu mais de cem premiações. Dentre estas, podemos destacar: a Comenda e Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (em 2007); o Prêmio Almirante Álvaro Alberto - uma das maiores honrarias científicas do Brasil (2019); o Prêmio CBMM de Ciência e Tecnologia, na categoria “Ciência” (2021). Além disso, Vanderlei é membro de diversas academias de ciências, incluindo a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, a Academia Mundial de Ciências (TWAS) e a Pontifícia Academia das Ciências Sociais do Vaticano (Bagnato, 2022; Bagnato, 2025a, ABC, 201?). Sobre suas premiações, o professor Bagnato relata: “<i>Eu nunca trabalhei por prêmios. Trabalho para a ciência ser excelente e relevante</i>” (Bagnato, 2025c).
Além das contribuições já citadas e dos reconhecimentos acadêmicos, Vanderlei tem se empenhado em disponibilizar o conhecimento científico para públicos variados, diversificando formatos e linguagens, criando os primeiros cursos online massivos (MOOCs) de física no Brasil, alcançando centenas de milhares de estudantes (Bagnato, 2025a; Bagnato, 2025b). A dedicação dele à educação e à popularização da ciência têm sido evidentes em suas inúmeras iniciativas, como o desenvolvimento de ações de comunicação pública da ciência por meio de televisão, livros, kits educativos e eventos em escolas. Por este trabalho, Vanderlei recebeu o 24º Prêmio José Reis de Divulgação Científica (CNPq) em 2004.
Em entrevista, Bagnato diz:
<cite> “Não precisamos só de cientistas, precisamos de mentes científicas. É diferente. Precisamos de pessoas que aplicam a ciência em tudo o que fazem. Se tiver um verdureiro que sabe ciência, eu garanto para você que ele vai vender a melhor fruta. Ele sabe como preservar, pois entende os processos” (Bagnato, 2025c). </cite>
Devido a sua expoente atuação científica, Bagnato aceitou o desafio de montar um laboratório de biofotônica na <i>Texas A&M University</i>, nos Estados Unidos, inspirado no centro que coordena em São Carlos. Apesar de passar, atualmente, a maior parte do tempo no Texas, continua acompanhando e executando todos os seus projetos no Brasil. (Bagnato, 2025c; Pivetta, 2023).
Mesmo com grande reconhecimento científico (nacional e internacional), em seu dia a dia Vanderlei Bagnato é reconhecido por seus colegas como sendo alguém simples, dedicado e atuante. De acordo com Kleber Chicrala (2022), ele costuma chegar em seu trabalho dirigindo seu fusca amarelo, usando tênis e vestindo uma camiseta simples estampada com algum símbolo dos grupos de pesquisa no qual participa - Grupo de Óptica, Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica, USP (e outras). Carrega geralmente uma pasta pesada e uma mochila ainda mais pesada. Mantém, desde o início de sua carreira, uma rotina dedicada à ciência, conciliando com sua vida de marido, pai, avô e cidadão, da qual ele se orgulha por conseguir participar de ações beneficentes (Chicrala, 2022; Bagnato, 2022). Vanderlei Salvador Bagnato é um exemplo de como a paixão pela ciência, aliada ao compromisso social, podem transformar vidas e contribuir significativamente para o avanço do conhecimento e o bem-estar da sociedade.
-
Maria da Conceição de Almeida Tavares <strong>Laços familiares e formação acadêmica</strong>
Nasceu em Portugal, no dia 24 de abril de 1930, na cidade de Aveiro, filha de Fausto Rodrigues Tavares e de Maria Augusta de Almeida Caiado. Seu pai resistiu ao regime político ditatorial da era Salazar. O Regime Salazar "foi um regime político autoritário que vigorou em Portugal de 1932 a 1974, sob a liderança de António de Oliveira Salazar, caracterizado como um Estado corporativista, nacionalista e anticomunista" (Campos, 2024).
Os seus estudos universitários começaram em Portugal, primeiramente ela cursou engenharia e depois, matemática. No curso de engenharia, no <i>Instituto Superior Técnico de Lisboa</i>, havia apenas três mulheres, incluindo Maria, de um total de 250 alunos. No ano de 1953, formou-se em matemática, pela Universidade de Lisboa.
Àquela época, Portugal e Espanha ainda passavam por uma situação política conturbada. Para fugir das opressões da ditadura de Salazar, Maria da Conceição mudou-se para o Brasil no ano de 1954, junto de seu marido Pedro José Serra Ribeiro Soares, que era formado em engenharia. Além da fuga do regime ditatorial de Salazar, outros motivos a estimularam a vir morar no Brasil, dentre eles: acompanhar o marido que havia recebido uma proposta de emprego para trabalhar na empresa de construção civil, Saturnino de Britto e rever os pais que já estavam morando aqui.
Maria Conceição tinha se casado no ano de 1952 e ao chegar no Brasil estava grávida de sua primeira filha. Ela e o marido decidiram morar na cidade do Rio de Janeiro. Lá, o casal conseguiu se inserir e ser bem-aceito pela sociedade carioca, principalmente pelo círculo político esquerdista e acadêmico. Conforme, Gomes (2021), “os dados apontam para uma vida social ligada aos ciclos da sociedade carioca da época, marcando presença nos debates e tomadas de decisão exercendo, ainda, significativa influência nos rumos da economia brasileira”. O casamento com Pedro José durou até 1956, ano em que se desquitaram.
Maria da Conceição teve dois filhos, Laura e Bruno. A sua primeira filha é Laura Tavares Ribeiro Soares, que nasceu no ano de 1954. Laura é Professora em economia na área de concentração em política social pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (Melo, 2019).
O outro filho, Bruno Tavares Magalhães Macedo, nasceu em 1965, fruto da união com o geólogo Antônio Carlos de Magalhães Macedo. Bruno é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense e graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (Melo, 2019).
No ano de 1955, Maria Conceição foi aprovada em concurso público para trabalhar no Instituto Nacional de Imigração e Colonização (Inic) e três anos após chegar ao Brasil, teve a sua nacionalidade brasileira reconhecida. Como seu diploma de matemática não foi aceito no Brasil, então em 1957, Conceição Tavares fez vestibular e entrou para a Faculdade de Ciências Econômicas da antiga Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Durante sua graduação foi contratada como consultora pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE), a fim de realizar análises econométricas, estudo que prevê a aplicação de ferramentas estatísticas para obter relações entre variáveis econômicas com base em modelos matemáticos. As análises buscavam observar as relações de distribuição de renda no Brasil. No ano de 1961, após concluir a graduação, foi contratada pelo escritório da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), no Brasil, para realizar um curso sobre desenvolvimento econômico. Os segmentos teóricos da professora Conceição Tavares podem ser divididos em três fases: a fase Cepal, a fase Unicamp e a fase UFRJ. “Na primeira etapa, privilegiou-se a questão do (sub)desenvolvimento econômico periférico, em particular a economia brasileira; na segunda tratou-se do diálogo crítico com Marx, Keynes e Kalecki, autores importantes da tradição da Economia Política […], já na terceira etapa, a análise contempla a (des)ordem econômica mundial.” (Melo, 2019).
Foi para o Chile no ano de 1968, onde trabalhou na Cepal, e pautou-se nos estudos voltados para o desenvolvimento periférico na América Latina, sobretudo no Brasil. Após voltar do Chile, cursou mestrado em economia, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde o concluiu, no ano de 1972. Em 1975, obteve o título de doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, cuja tese foi intitulada: Acumulação de capital e industrialização no Brasil (Melo, 2019).
Em 1973, Maria da Conceição passa a lecionar na Unicamp, cujos trabalhos e estudos estavam voltados para a revisão das teorias de Marx, Keynes e Kalecki. Ela também analisava a conformação da estrutura oligopólica, que gera assimetria nos processos de acumulação de renda, no progresso tecnológico e na distribuição de renda. Estruturas oligopólicas geram concentração e dominação de grande parcela do mercado, por parte de um pequeno número de empresas.
Nos anos 1980, Conceição Tavares retornou para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, como coordenadora do curso de economia, com trabalhos voltados para o estudo da desordem econômica mundial e a formação dos centros de hegemônicos na economia.
-
Mercedes Maria da Cunha Bustamante <Strong> Laços familiares e formação acadêmica</strong>
Nascida em Santiago, no Chile, em 24 de setembro de 1963, veio para o Brasil aos 7 anos de idade. Seu pai trabalhava na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), motivo pelo qual nasceu no Chile. Desde muito pequena gostava de descobrir o funcionamento das coisas e sempre foi muito curiosa. Na ciência começou a estudar fisiologia vegetal, queria entender como as plantas funcionavam, seu metabolismo, sua estrutura, e acabou trabalhando com ecologia de ecossistemas. Embora não fosse uma pessoa cientista, sua mãe, uma mineira de muita resistência e determinação, foi sua maior inspiração. Mercedes acredita que ter exemplos femininos torna mais fácil, para as meninas, a percepção de que é possível superar desafios no campo das ciências.
O interesse pela área de Ciências Biológicas consolidou-se durante o ensino médio quando se profissionalizou como auxiliar de análises clínicas, uma experiência que lhe possibilitou o contato com procedimentos analíticos e práticas laboratoriais. Durante a graduação, no curso de Ciências Biológicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), as excursões de campo oferecidas pela instituição foram oportunidades que lhe permitiu conhecer diversos ecossistemas (BUSTAMANTE, 2017).
Seu encantamento pelo Cerrado ocorreu no início dos anos 80, ainda durante a graduação, quando estudava biologia e assistiu a uma apresentação de botânica, no Museu Nacional, na qual aparecia as belas flores do Cerrado (REVISTA PESQUISA, 2023). Dez anos depois do início deste evento, devido ao encantamento despertado, Mercedes foi morar em Brasília e trabalhar como professora visitante da Universidade de Brasília (UnB). Oportunamente, pôde conhecer o Cerrado, devido a uma viagem que fez, onde atravessou o Cerrado até o Pantanal. Em suas próprias palavras, “a experiência com as atividades de campo, já nos semestres iniciais do curso de Ciências Biológicas, reforçou a minha convicção (inicialmente fundamentada na minha vivência como discente) de que o treinamento e a percepção dos fenômenos naturais em campo são parte essencial da formação de bons profissionais de Ciências Biológicas em um país com a riqueza biológica do Brasil”.
Logo após a conclusão da graduação em Ciências Biológicas fez especialização na mesma área e decidiu cursar o mestrado em Ciências Agrárias, pela Universidade Federal de Viçosa. No início de 1990, viaja para a Alemanha, a fim de fazer o doutorado, onde iniciou os estudos relacionados à mudança climática. Na época, este tema começou a ganhar mais atenção e por isso, Mercedes aprofundou-se nele, partindo de uma escala regional para uma global (CRBIO03, 2021). Suas pesquisas mais recentes versam sobre o uso do solo e das mudanças climáticas, cujo foco é o bioma Cerrado.
Tornar o ensino de Ciências mais atrativo e acessível sempre foi uma preocupação para ela. Ao participar de projeto de acompanhamento de alunos da rede pública estadual do Rio de Janeiro, abriu-se uma janela de possibilidades, que despertou nela, o interesse pela docência.
-
Carolina Martuscelli Bori <strong>Configuração familiar</strong>
Carolina Martuscelli nasceu no dia 4 de janeiro de 1924, na cidade de São Paulo. O pai dela, Aurélio Martuscelli, veio da Itália para o Brasil em 1890 e trabalhava como engenheiro fazendo terraplanagem e construindo estradas na cidade paulistana. A mãe de Carolina, Maria Teresa, era brasileira e trabalhava em uma loja de tecidos. Juntos eles tiveram 6 filhos: Carolina, Wanda, Francesco, Florinda, Adele e Nicola. O pai de Carolina faleceu ainda novo e, para conseguir cuidar dos filhos, Maria Teresa contou com a ajuda de sua mãe Fiorinda Filomena. A mãe de Carolina valorizava muito os estudos. Por isso, ela incentivou todos os seus filhos a terem uma formação universitária (Cândido, 2014).
Carolina se casou com o italiano Giovanni Bori no início da década de 1950, do qual herdou seu sobrenome, e teve com ele um filho. Contudo, poucos anos depois do nascimento de seu filho eles se divorciaram, mas Carolina manteve o sobrenome de casada (Cândido, 2014; Matos e Costa, 1998).
O valor e estímulo familiar pelos estudos fizeram com que Carolina, desde os seis anos de idade, começasse a estudar na escola alemã. Em entrevista cedida a Maria Amélia Matos e Vera Rita da Costa, Carolina contou que sempre esteve decidida a ser professora. Ela disse que essa opção pela educação foi também em decorrência da orientação que obteve ao estudar na escola da “Praça” - Escola Normal Caetano de Campos, a qual formava os alunos para serem professores (Matos e Costa, 1998). Carolina seguiu esta área de atuação também na faculdade, cursando pedagogia na Universidade de São Paulo (USP). De acordo com Cândido (2014), Carolina concluiu o curso de pedagogia no ano de 1947 e, logo em seguida, concluiu um curso de especialização na área de psicologia educacional, também pela USP.
-
Miguel Ângelo Laporta Nicolelis <strong>Configuração familiar</strong>
Descendente da fusão espanhola e grega de origem materna e italiana por parte de pai, nasceu em 1961, Miguel Ângelo Laporta Nicolelis, na extinta Maternidade Matarazzo, paulistano da Bela Vista, integrante do bairro Bixiga em São Paulo. Cresceu em Moema, observando a movimentação de aviões no aeroporto de Congonhas. Seus pais, Ângelo Brasil Nicolelis - juiz de carreira aposentado - e Giselda Laporta Nicolelis, escritora de literatura infantil.
Estudou no 1º Colégio de Moema, depois no Bandeirantes, onde, nos raros laboratórios, iniciou a percepção da visão humanista da biologia. Tentava entender “O que somos? De onde viemos?”, compreender a teoria da evolução, e nesse processo, percebia a beleza, a riqueza e a complexidade das coisas e o fato de serem inteligíveis e explicáveis. Essa experiência mostrou-lhe que era possível pensar fora de modelos e padrões; tornar-se cientista propiciaria o emprego sonhado e lhe permitiria experimentar e se divertir ao mesmo tempo (Dominici e cols., 2008; Gugliano, 2021).
Teve como inspiração intelectual a avó Ligia Maria, uma agnóstica em dúvida. Viveu em ambiente familiar religioso, mas ficou traumatizado com a divindade no jogo do Palmeiras x São Paulo (1971), quando o juiz Armando Marques anulou o gol de Leivinha. Ocorreu que neste mesmo dia a mãe de Miguel marcou sua 1ª comunhão, o que o deixou bastante chateado: “Se existe o ser que criou tudo, não vai ser benevolente em deixar um moleque de 10 anos assistir ao jogo do Palmeiras?”. Ressaltou que “O único divino que eu acredito é o Ademir da Guia [craque do Palmeiras nos Anos 1960-70, apelidado de Divino pela crônica esportiva]. Aliás, tenho uma ótima relação com Deus: ele não acredita em mim e eu não acredito nele” (Dominici e cols., 2008, p. 30; 31).
Resolveu estudar medicina pela influência de Waldemar (tio Dema) e das leituras de adolescente, como “Hospital” (<i>best-seller</i> de Arthur Hailey) e “O Cérebro” (obra de não ficção de Isaac Asimov), sendo despertado e desafiado pelos instintos juvenis contra autoridades e convenções.
Miguel foi casado com a médica Laura Oliveira e deste relacionamento nasceram três filhos: Pedro Nicolelis, atualmente com 34 anos; marceneiro, considerado por Miguel como seu filho analógico, pois ainda possui celular do “tempo das carroças”; Rafael Nicolelis, com 32 anos, professor; e Daniel Nicolelis, com 29 anos; designer gráfico.
-
Marilena Chaui <strong>Laços familiares e formação acadêmica</strong>
Marilena de Souza Chaui é uma das mais importantes cientistas brasileiras da atualidade. Filósofa, sua extensa obra vem influenciando a formação intelectual de diferentes gerações em nosso país e seus textos são utilizados como referência desde a educação básica até a pós-graduação. Chaui é autora de dezenas de livros sobre temas diversos, a exemplo da história da filosofia e da política. Muitos deles convidam o leitor a refletir sobre conceitos como democracia, cidadania, cultura e ideologia.
Nascida na capital paulista, em 1941, Marilena Chaui é filha de um jornalista e uma professora e cresceu em um meio que valorizava a educação e incentivava a leitura e a escrita. Estudou a maior parte de sua infância e adolescência em escolas públicas e encantou-se pela filosofia quando tinha mais ou menos 16 anos. Isso ocorreu quando um de seus professores no Colégio Estadual Presidente Roosevelt, João Villalobos, deu algumas aulas sobre lógica. Levando à frente sua empolgação e curiosidade com o tema, Marilena graduou-se em filosofia na Universidade de São Paulo (USP), em 1965, e passou a estudar mais profundamente a história desse campo do conhecimento (CHAUI, 2018).
Enquanto cursava o mestrado na mesma universidade, atuou como professora no Colégio Estadual Alberto Levy, onde ministrava aulas de filosofia. Chaui sempre gostou muito da atividade docente, reconhecendo a imensa importância de sua disciplina no ensino básico. Segundo ela, nasceu “para ser professora” e “não há nada mais empolgante e prazeroso do que ver os estudantes descobrirem o pensamento, a linguagem, a reflexão, à medida que vão escutando o que você diz”. Assim, adorava atuar na escola pública, recordando-se desse momento como de grande alegria, pois seus alunos costumavam ser muito interessados (SANTIAGO & SILVEIRA, 2016, p. 271).
Quando finalizou o mestrado em Filosofia, em 1967, iniciou o curso de doutorado, deixou o Colégio Alberto Levy e passou a dar aulas como Professora Assistente no Departamento de Filosofia da USP. Nessa ocasião, recorda-se de uma situação na qual teve de enfrentar o machismo: “[...] o professor que dirigia o departamento não via com bons olhos a contratação de mulheres para a universidade, sua maior objeção (compartilhada por vários professores) era a maternidade. Tempos mais tarde, eu soube que um dos professores, favorável ao meu ingresso, galhofeiramente propusera ao departamento minha esterilização, já que minha fertilidade causava tanto mal-estar” (CHAUI, 2018).
Durante seus anos estudando e, depois, dando aulas na universidade, Marilena Chaui teve intenso contato com diferentes formas de expressão artística e cultural, frequentando os teatros, cinemas e bares que ficavam próximos ao campus da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, localizado, à época, no centro da cidade de São Paulo. As discussões e debates intelectuais transpunham os muros da instituição, espalhando-se, de suas salas de aula, grêmios e centros estudantis, a esses ambientes alternativos (SANTIAGO & SILVEIRA, 2016).
-
Alberto Carvalho da Silva Alberto Carvalho da Silva nasceu na aldeia de Porto (Portugal), em 1916, e no ano de 1924, aos sete anos de idade, veio com sua família para o Brasil. Em entrevista apresentada à revista Ciência Hoje, em 1988, ele relatou brevemente sua infância humilde em São Paulo, onde vivia com a família em porões e cortiços da cidade. Além disso, inicialmente, o único contato que tinha era apenas com o irmão mais velho, pois onde moravam havia poucas crianças. Contudo, logo que se mudaram teve a oportunidade de conviver e brincar com outras crianças, ampliando assim seu convívio social.
No começo, seu forte sotaque português foi motivo de piada entre colegas e professores, o que chegou a deixar marcas em sua infância. Na entrevista cedida a Camargo, Malnic e Costa (1988), ele relatou que seu sotaque divertia os colegas e a professora da escola, pois ela lhe pedia para que repetisse a fala cada vez que fazia algum comentário.
Alberto iniciou a Faculdade de Medicina na Universidade de São Paulo (USP), em 1934 e o espírito curioso e investigativo dele desabrochou ainda nos tempos de estudante. Juntamente com outros colegas de curso, doutor Alberto (ou professor Alberto, como viria a ser chamado por seus colegas) conta para Camargo, Malnic e Costa (1988), que na época de estudante se juntou com mais dois amigos e formaram um grupo de estudos no qual adquiriam livros, revistas científicas internacionais e trocavam semanalmente informações e interpretações sobre os avanços e métodos científicos.
Dessa união, na qual compartilhavam interesses e curiosidades, também surgiu a participação em diferentes pesquisas, ampliando assim sua perspectiva científica. Aproveitando os casos clínicos que chamavam a atenção deste grupo de jovens, Dr. Alberto realizou seu primeiro projeto de pesquisa (com auxílio dos amigos) sobre amebíase (infecção causada por uma ameba), com foco em epidemiologia, buscando estabelecer relações entre a presença de Entamoeba histolítica (nome científico da ameba) e a evolução dos sintomas clínicos. Participou, com os mesmos colegas, de pesquisas sobre doenças digestivas e sobre doenças pulmonares. Todos estes estudos geraram publicações relevantes para a época (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Além do curso de Medicina, Dr. Alberto ingressou também em Ciências Sociais, Filosofia e Química na USP. Os dois primeiros cursos foram influenciados por seu irmão e os amigos da Faculdade de Direito (que ele descreve como poetas e escritores). Com estes amigos, Dr. Alberto lembra que a convivência era até maior do que com os colegas da Medicina, chegando a participar de rodas musicais onde ele tocava tamborim em um grupo de choro. Além disso, ele relata que seu interesse nesses cursos também surgiu da oportunidade de ter uma bolsa de estudos, pois na época a Faculdade de Filosofia oferecia essa possibilidade aos alunos que cursassem simultaneamente Filosofia e Ciências Sociais (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Já sobre o curso de Química, Dr. Alberto conta que cursou dois anos como ouvinte e seu interesse estava em ampliar o conhecimento básico para melhorar suas investigações em bioquímica. Neste curso teve a oportunidade de ser aluno de grandes professores, como Pascoal Senise e Rheinbolt e de fazer grandes amizades também (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
O começo da carreira como pesquisador deu-se logo após a formação em Medicina, em 1940, quando iniciou como assistente de pesquisa no Departamento de Fisiologia (MARCOLIN, 2002). Naquela época, apesar de a pesquisa experimental não ser estimulante na Faculdade de Medicina, ele já estava convicto de que devia fazê-la.
Neste período, Dr. Alberto descreve que a falta de uma pós-graduação formal estimulou sua iniciativa pessoal e autoconfiança, já que teve que suprir as próprias falhas de sua formação estudando por conta própria diferentes matérias (química, matemática, estatística etc.). Contudo, reconhece que lhe faltou a disciplina e a integração do conhecimento, que um bom curso de pós-graduação pode oferecer atualmente (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Seu foco de atuação em nutrição foi descrito por ele como sendo oriundo tanto do perfil do laboratório de Fisiologia da Faculdade de Medicina, como por sua formação com o curso de Química. Na mesma entrevista, Dr. Alberto descreve que estava mais interessado nos aspectos bioquímicos e metabólicos da nutrição do que em avaliações nutricionais ou no valor nutricional dos alimentos (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Para estabelecer um laboratório de pesquisa nessa área e se aprimorar na profissão, Dr. Alberto conseguiu uma bolsa da Fundação Rockefeller no Departamento de Nutrição da Universidade Yale (1946-47), no Departamento de Fisiologia da Universidade de Chicago (1959) e no Departamento de Nutrição do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em 1960 (BELLESA, 2002).
Foi durante sua experiência na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, que ele inovou ao começar a trabalhar com nutrição em gatos. Ele esclarece que esta ideia de realizar experimentos nutricionais em um novo animal favorece novas manifestações clínicas e caminhos bioquímicos (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Sobre o cuidado com os gatos, o Dr. Gerhard Malnic relatou que eram marcantes o carinho e atenção com os quais o Dr. Alberto os tratava, estando presente nos laboratórios inclusive aos domingos e feriados, junto com seus orientados (MALNIC, 2002).
Neste período inicial da carreira, anterior à criação de organizações como o antigo Conselho Nacional de Pesquisas (hoje, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq) e Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Dr. Alberto detalhou algumas das dificuldades enfrentadas. Relembra que naquele tempo foi ele quem confeccionou as primeiras gaiolas de gatos utilizando caixotes oriundos de suas bagagens trazidas dos Estados Unidos e com telas de arame compradas em armazéns de material para construção civil.
Após algumas visitas de representantes comerciais ao laboratório da Faculdade de Medicina, ele obteve alguns de seus primeiros auxílios financeiros. Além destes recursos esporádicos, a própria Faculdade de Medicina destinava uma parcela das verbas para manter o laboratório (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988). Outra contribuição significativa foram os recursos enviados por seus colegas para a compra de novos equipamentos.
Embora os recursos fossem escassos, Doutor Alberto dizia que aqueles tempos tinham suas vantagens: entre elas, o fato de que se necessitava de menos equipamentos e estes equipamentos eram mais baratos e de longa duração. Comparativamente, nos dias atuais, aqueles que não podem acompanhar a renovação dos instrumentos de trabalho ficam rapidamente desatualizados em suas pesquisas (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Na perspectiva do Dr. Alberto, a década de 40 e início dos anos 50 foram momentos de capitalização e agregação de pesquisadores, tornando os anos 50 mais dinâmicos e cheios de entusiasmo, tanto na pesquisa como no ensino (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Além disso, este também foi um período de organização da classe de pesquisadores da qual ele pertencia. Ele relata que nos anos 50 e 60 era comum se passar os domingos na “sala de gatos” realizando pesquisas e discussões sobre as questões salariais e a criação da Associação dos Auxiliares de Ensino. Assim, esta época ficou marcada na memória do pesquisador como sendo um período de muito trabalho e atividades políticas (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Foi a Associação de Auxiliares de Ensino que deu origem à Associação dos Docentes da USP (Adusp). Dois motivos levaram à criação da associação, sendo eles: os cortes de verbas realizados no governo de Jânio Quadros; bem como a resistência à autoridade absoluta do professor catedrático, que podia fazer o que bem quisesse com as verbas e com a carreira dos outros pesquisadores (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Dentre as reivindicações da Associação estava também a criação da FAPESP (prevista na Constituição Paulista de 1947), que ganhou força com os movimentos dos pesquisadores. Neste grupo inicial da associação estavam presentes outros ilustres representantes, tais como: Fernando Henrique Cardoso, Armando Piovesan, Carlos Lira, Luiz Rey, Abrão Fazer, Eros Ehrart e outros (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Após um período como assistente de pesquisa, tornou-se professor livre docente, professor adjunto e, em 1964, catedrático (MARCOLIN, 2002). As principais motivações para progredir na carreira tinham relação com a autonomia do pesquisador. O Dr. Alberto descreve esta experiência relatando que o professor catedrático poderia indicar assistentes, convidar pesquisadores visitantes, discutir verbas e ter outras liberdades que não cabiam ao assistente de pesquisa. Para estes, por mais que houvesse esforço, o trabalho destinado era majoritariamente bater martelo para fazer gaiolas para gatos. Foi a partir desta percepção que o pesquisador decidiu prestar o concurso de docente (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Outra experiência marcante em sua trajetória foram as associações de suas participações políticas com grupos de esquerda, especialmente durante o período da ditadura militar, causando seu afastamento da USP em 1969, com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Doutor Alberto também foi impedido pelo AI-10 de exercer qualquer função pública (FAPESP 60 anos: O legado do doutor Alberto Carvalho da Silva)
Sobre o questionamento a respeito de ele fazer parte de um grupo de comunistas, o Dr. Alberto respondeu em entrevista concedida a Camargo, Malnic e Costa (1988), que o vínculo político individual de cada pesquisador não lhe interessava, pois o principal motivo de agregação era o interesse pelo desenvolvimento científico e cultural, além da honestidade de princípios, desinteresse por prestígio e status. Ele costumava descrever este grupo como sendo idealistas que buscavam essencialmente melhorar a universidade (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Após seu afastamento da USP com a edição do AI-5, o Dr. Alberto trabalhou na Fundação Ford, que é uma instituição internacional com foco em justiça social (FORD FOUNDATION, 2024). Neste período, ele teve a oportunidade de aplicar seus conhecimentos de nutrição em políticas públicas, realizando um trabalho como consultor técnico em ciência, tecnologia e nutrição durante o período de 1968 a 1980.
Nestes anos, esteve em escritórios no Rio de Janeiro, Santiago do Chile e em Lima (Peru). A função de consultor trouxe para o Dr. Alberto a oportunidade de atuar em projetos do Banco Mundial, elaborando programas de nutrição no Brasil, Indonésia e no México, bem como no Subcomitê de Nutrição da Organização das Nações Unidas (ONU). Seu currículo também agrega consultorias na Universidade das Nações Unidas em Moçambique e Angola (1981) e na Fundação Interamericana em Santiago (1982) (REGINA, 2015; BELLESA, 2002).
Após a Ditadura Militar, no ano de 1980, o Dr. Alberto foi reintegrado à USP, assumindo a função de chefe de Departamento. Contudo, o período de afastamento das atividades de pesquisa marcou-lhe profundamente. Após mais de uma década fora dos laboratórios, ele relata que ao retornar considerou ser tarde demais para reiniciar a atividade de pesquisador, porque não acompanhou a evolução bibliográfica da época. Para ele, o vazio de 11 anos distante da pesquisa o fez constatar que só se sentia realmente bem e realizado quando estava trabalhando em laboratório (CAMARGO, MALNIC, COSTA, 1988).
Na FAPESP, Dr. Alberto exerceu atividades de diretor científico no período de 1968-69, foi também diretor presidente entre os anos de 1984 e 1993, e trabalhou até seus últimos dias em prol da instituição. Nos anos 90, foi presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp). Em seu extenso currículo também está uma ampla participação na história da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), onde chegou a ser titulado como presidente de honra. Ademais, foi professor honorário e coordenador da Área de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA – USP) de 1994 até 2002, ano de seu falecimento (BELLESA, 2002; MALNIC, 2002).
Alberto Carvalho da Silva dedicou-se incansavelmente à ciência até o fim de sua vida. Seus últimos trabalhos foram participações em dois livros da FAPESP, em especial o livro no qual ele consolidou os dados sobre bolsas, auxílios e projetos financiados pela instituição até o ano de 2002, o qual fora concluído treze dias antes de seu falecimento. Na homenagem feita por Neldson Marcolin, consta conforme a esposa do Dr. Alberto, Isa, era natural que o marido tivesse buscado finalizar aquele trabalho, mesmo estando doente, pois ele se sentia como sendo uma espécie de pai da FAPESP. Doutor Alberto faleceu no dia 30 de junho de 2002, em São Paulo, aos 85 anos, em consequência de fibrose pulmonar e fazia um enorme esforço para respirar e caminhar (MARCOLIN, 2002).
De acordo com o levantamento apresentado por Gerhard Malnic (Diretor do IEA-USP), as contribuições científicas do Dr. Alberto Carvalho da Silva foram inúmeras. Contabiliza-se como autor de 40 trabalhos de natureza experimental, sendo a maioria sobre nutrição (publicadas em revistas internacionais). Foram mais de 50 trabalhos experimentais apresentados em reuniões científicas no país e no exterior; autor de diversos trabalhos e relatórios sobre política científica e tecnológica e política de saúde, alimentação e nutrição (MALNIC, 2002). Seu legado e impactos vão além dos avanços científicos realizados pelo pesquisador, conforme se observa em relatos e homenagens anunciadas por diferentes colegas.
Gerhard Malnic relata momentos no qual o Dr. Alberto o incentivava e colaborava com seu desenvolvimento como cientista e descreve a personalidade dele:
“Conheci o Dr. Alberto, como nós o chamávamos, durante o segundo ano de meu curso médico, em 1953, como professor do curso de Fisiologia, ao fim do qual me convidou a trabalhar com ele em seu laboratório” (MALNIC, 2002).
“Me introduziu ao estudo da Fisiologia Renal, e lemos juntos o famoso livro de Homer Smith, que era a bíblia da área, o que possibilitou-nos trabalhar na área a fim de estudar a excreção renal da tiamina (vitamina B1), o que foi a base de minha tese de doutorado, de 1960, que depois conseguimos publicar no American Journal of Physiology” (MALNIC, 2002).
“Sua perda abre uma lacuna no debate sobre a política científica e tecnológica do país, empreendido por ele sempre de maneira objetiva e bem-fundamentada. Entristece profundamente, mas ao mesmo tempo enche de orgulho a todos que tivemos o privilégio de com ele conviver no Departamento de Fisiologia, e na Faculdade de Medicina e no ICB de uma maneira geral, podendo admirar sua competência, dedicação, placidez, generosidade e bom-humor, traços de sua personalidade que sempre ficarão em nossa lembrança como modelo de um ser humano dedicado a seus ideais, e que os perseguiu até o fim com pertinácia e intransigência” (MALNIC, 2002).
No último livro do Dr. Alberto “Atividades de Fomento à Pesquisa e Formação de Recursos Humanos, Desenvolvidas pela FAPESP entre 1962 e 2001”, publicado após o falecimento do pesquisador, duas homenagens destacam a valorosa trajetória deste cientista, bem como algumas de suas características:
“Todos nós sentimos, no momento, a tristeza de sua ausência e o orgulho de termos compartilhado com ele a força, a alegria e o entusiasmo de sua dedicação à história institucional e acadêmica de nosso Estado e, em particular, de seu grande amor pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a nossa querida FAPESP” Carlos Vogt (SILVA, 2004, p.7).
“Faleceu o doutor Alberto Carvalho da Silva, homem extraordinário: bondoso, carinhoso, prestimoso, atuante, participativo, colaborador, modesto, leal, fiel. Todos perdemos um valioso amigo” Francisco Romeu Landi (SILVA, 2004, p.9-10).
Alberto Carvalho da Silva é uma figura emblemática na história da ciência brasileira, cuja vida foi marcada por uma dedicação incansável à pesquisa, conquistas notáveis e contribuições significativas para o desenvolvimento científico e acadêmico no país, bem como por suas contribuições em políticas públicas de saúde. Seu legado perdura como inspiração para as gerações futuras, destacando a busca pelo avanço do conhecimento.
-
César Mansueto Giulio Lattes Você já ouviu falar nos mésons pi? E em aceleradores de partículas? Pois bem, eles têm a ver com a trajetória do cientista que apresentaremos nesse texto – César Mansueto Giulio Lattes. Filho de imigrantes italianos, ele nasceu na cidade de Curitiba, onde iniciou seus estudos com uma tutora e, depois, frequentou uma escola bilíngue, a Escola Americana. Por volta dos dez anos de idade, mudou-se para São Paulo, finalizando o ensino básico no Instituto Médio Dante Alighieri. Isso nos mostra que os pais de Lattes, Carolina e Giuseppe, faziam questão de que ele tivesse acesso a uma boa educação e que podiam custear isso (SÁ, CHAVES & GURGEL, 2018; TAVARES, 2017).
Mas, antes de falar da trajetória de Lattes como estudante e, depois, como pesquisador, precisamos apresentar um pouco do contexto no qual ele viveu. Do contrário, não entenderíamos muitos aspectos importantes de sua história. Durante a década de 1940, cresceram os movimentos que lutavam pela valorização do Brasil e que incentivavam o desenvolvimento da autonomia política e econômica do país. Em geral, tais movimentos defendiam que a ciência era uma importante ferramenta nesse sentido e, portanto, que o governo deveria dar mais apoio à pesquisa através, por exemplo, de investimento na construção de estruturas adequadas para a atividade científica e na formação de cientistas (TAVARES & VIDEIRA, 2020).
Nessa época, grande parte dos físicos brasileiros era formada na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL/USP) - instituição da qual Lattes fez parte, primeiro como aluno e, mais tarde, como professor/pesquisador. A FFCL foi criada em 1934 como estratégia para incentivar a formação de novas gerações de profissionais que atuassem na pesquisa, ou seja, cientistas/professores e técnicos. Assim, um grande número de pesquisadores estrangeiros foi convidado para fundar e chefiar departamentos na faculdade, entre eles, o físico teórico Gleb Wataghin (1899-1986). Wataghin nasceu na Rússia, mas viveu por bastante tempo na Itália, onde fez pesquisas em física quântica – mais especificamente, sobre as características das partículas que formam o átomo: as chamadas partículas subatômicas (TAVARES, 2017).
Wataghin chegou ao Brasil para chefiar o Departamento de Física da FFCL e trouxe consigo sua experiência em estudos com raios cósmicos. Os raios cósmicos são capazes de gerar colisões entre partículas de altas energias, uma técnica que era bastante utilizada no estudo do núcleo atômico naquela época. Assim, Wataghin montou um laboratório e uma equipe para realizar investigações a partir dessa metodologia. Dela fizeram parte o físico experimental italiano Giuseppe Occhialini e estudantes, como Marcello Damy (1914-2009), Mário Schenberg (1914-1990) e, mais tarde, Lattes. A convite de Wataghin, Occhialini chegou ao Brasil em 1937 para ser professor assistente no mesmo departamento e também trouxe consigo habilidades que foram importantes para o desenvolvimento das pesquisas em Física no Brasil - a exemplo de seu domínio sobre a construção e o funcionamento de aparelhos chamados contadores Geiger-Müller e câmaras de Wilson. Wataghin e Occhialini mantinham um amplo diálogo com estudiosos estrangeiros, assim as investigações conduzidas por eles e sua equipe circulavam em diferentes centros de pesquisa internacionais (TAVARES, GURGEL & VIDEIRA, 2020).
Foi nesse contexto que, em 1941, Lattes ingressou no curso de Física da FFCL, com acesso a um laboratório relativamente bem equipado, a uma biblioteca bastante atualizada e a professores bastante experientes. Naquele momento, as universidades possuíam algumas características diferentes de hoje em dia, como por exemplo um número muito menor de alunos por curso. Assim, havia maior proximidade entre esses e os professores, o que favorecia bastante a atividade científica, pois tornava todos mais acessíveis para discutir suas pesquisas e ideias. Lattes não só foi aluno de muitos dos membros da equipe de Wataghin como, rapidamente, passou a integrá-la (SÁ, CHAVES & GURGEL, 2018; TAVARES, 2017).
Em 1942, o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial ao lado dos países chamados “Aliados” e isso impactou em muito as pesquisas no Departamento de Física da USP. Wataghin e Occhialini possuíam cidadania italiana e passaram a ser considerados potenciais “inimigos”, pois a Itália compunha o bloco rival, dos países do Eixo, com Alemanha e Japão. Ambos os professores deixaram oficialmente o departamento, mas Wataghin e parte de sua equipe, incluindo Lattes, continuaram a conduzir seus estudos, de forma discreta, no porão do prédio onde funcionava o departamento. Já Occhialini, interrompeu suas atividades de pesquisa e retornou apenas em 1943, quando o governo da Itália se rendeu. Mas, convidado por Carlos Chagas Filho (1910-2000) para realizar pesquisas em seu laboratório, na Universidade do Brasil, Occhialini foi para o Rio de Janeiro, dedicar-se às metodologias de detecção de partículas subatômicas. Quando retornou a São Paulo, ofereceu um curso sobre raios X, no qual Lattes foi seu único aluno e onde começou a se aproximar mais da física experimental, principalmente, dos métodos de análise visual (TAVARES, 2017).
Dois anos depois, seu professor rumou para Inglaterra e foi trabalhar no laboratório chefiado pelo físico inglês Cecil Powell (1903-1969). Lá investigava-se metodologias de detecção de partículas subatômicas que utilizavam chapas fotográficas, também chamadas de emulsões nucleares.
O problema é que essa metodologia precisava ser melhorada no que dizia respeito à coleta de dados sobre as partículas observadas. Occhialini trabalhava buscando melhorar essas limitações e comparava seus resultados com aqueles obtidos por Lattes, que havia permanecido na USP também estudando esses métodos de detecção (TAVARES, GURGEL & VIDEIRA, 2020).
Occhialini acreditava que Lattes poderia ajudar nas melhorias da metodologia de detecção e convidou-o para trabalhar também em Bristol. Lá, Lattes teve bastante autonomia para ampliar seu horizonte de investigações e testar hipóteses. Dedicou-se à calibragem das emulsões e a operar instrumentos aos quais não tinha acesso no Brasil, como um acelerador de partículas. Desse modo, desenvolveu habilidades únicas no manuseio desses equipamentos e na interpretação dos dados obtidos com eles. Em 1946, alguns meses depois de chegar a Bristol, Lattes sugeriu que as emulsões fossem enriquecidas com um elemento químico chamado boro, pois acreditou que as imagens das trajetórias das partículas ficariam registradas por mais tempo, o que auxiliaria a coleta de dados (TAVARES, 2023b).
Diversos experimentos com as emulsões enriquecidas com boro e calibradas por Lattes foram realizados e um deles produziu resultados interessantes, registrando a presença de uma partícula elementar com uma massa inesperada. Mas era preciso coletar mais informações para entender melhor a natureza deste fenômeno que estava sendo registrado. Em 1947, Lattes partiu para Chacaltaya, um dos picos mais altos dos Andes Bolivianos, o qual oferecia condições propícias para realização dos experimentos que buscavam esclarecer a natureza do fenômeno estranho observado. O material coletado foi, então, examinado no laboratório de Bristol e as análises com o microscópio evidenciaram a existência de uma partícula chamada méson pi. Mais de 10 anos antes, o físico japonês Hideki Yukawa (1907-1981) já havia formulado uma teoria sobre a existência dos mésons, mas, na prática, ela ainda não havia sido evidenciada. Essa demonstração foi muito importante para a legitimação de alguns princípios da mecânica quântica e de que a matéria é feita de partículas indivisíveis. Powell recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1947, mas, como vimos até aqui, jamais trabalhou sozinho (SÁ, CHAVES & GURGEL, 2018; TAVARES, 2023b).
Em 1948, Lattes conseguiu outra bolsa de pesquisa, agora pela Fundação Rockefeller dos Estados Unidos, e foi para a Universidade de Berkeley, onde teria acesso a um outro tipo de acelerador de partículas. A máquina, que pertencia ao laboratório chefiado pelo físico Eugene Gardner (1901-1986), permitiria que Lattes detectasse mésons em condições controladas. Gardner tinha muito interesse em trabalhar com Lattes, porque o cientista brasileiro possuía um enorme conhecimento sobre essas técnicas e ampla experiência em interpretar resultados. Alguns dias depois de sua chegada, Lattes conseguiu identificar sinais de mésons pi produzidos artificialmente. Tal evento contribuiu muito para a consolidação das metodologias que utilizavam os aceleradores nas pesquisas em física nuclear – uma área que tornou-se bastante estratégica no Pós-Segunda Guerra (TAVARES, 2023a).
Além disso, a pesquisa com os mésons pi teve desdobramentos econômicos e industriais significativos, pois mostrava que os aceleradores de partículas eram ferramentas importantes no desenvolvimento de estudos em física nuclear. Isso favorecia tanto os interesses das comunidades científicas e indústrias internacionais que os projetavam, fabricavam e vendiam, quanto os de grupos de cientistas brasileiros que queriam comprá-los para utilizá-los em seus estudos. Nesse sentido, é relevante situar Lattes dentro desse coletivo de físicos nacionais que, durante os anos de 1940, buscou valorizar a pesquisa brasileira, chamando atenção da sociedade como um todo para sua importância e incentivando que o poder público investisse no desenvolvimento em C&T no país – o que incluía fomentar a pesquisa e fornecer boas condições de trabalho para os cientistas (SÁ, CHAVES & GURGEL, 2018; TAVARES & VIDEIRA, 2020).
O resultado dos estudos sobre os mésons pi foi noticiado por jornais de grande circulação no Brasil como um dos mais importantes na história das físicas nuclear e atômica. Essa forma de veicular as notícias evidenciava o prestígio que não somente Lattes, mas a pesquisa brasileira, de um modo geral, havia conquistado no exterior. Ela podia ser colocada no mesmo patamar dos estudos internacionais, o que legitimava sua importância perante a sociedade brasileira. Diversas dessas reportagens foram, inclusive, escritas por físicos do grupo de Lattes, que tinham acesso a alguns veículos midiáticos importantes da época, como o jornal O Estado de São Paulo (SÁ, CHAVES & GURGEL, 2018).
No final de 1948, César Lattes voltou ao Brasil, dizendo que só ficaria definitivamente no exterior se não tivesse as condições necessárias para realizar suas pesquisas no Brasil. Segundo o Profº Drº Heráclio Tavares, em entrevista para o Canal Ciência, "Em cartas escritas assim que deixou o Brasil, em fevereiro de 1946, Lattes revela que um de seus maiores desejos era que todos brasileiros tivessem acesso ao conhecimento científico de qualidade. Para isso, ele abriria mão de posições em laboratórios e universidades bem estruturados no exterior e voltaria para o Brasil. Foi exatamente isso que ele fez em 1949, quando era reconhecido mundialmente por seu trabalho com os mésons e tinha convites de trabalho em laboratórios de todo o mundo. Ao voltar para o Brasil, ele deixou, um pouco, de ser cientista para se tornar o símbolo necessário para que a oferta da estrutura material a quem quisesse fazer ciência surgisse em nosso país".
A grande mídia transformou Lattes no símbolo da ciência brasileira na época, o que deu grande projeção à sua figura, possibilitando que ele tivesse acesso a pessoas que possuíam poder e influência suficientes para falar a favor dos investimentos nas pesquisas em Física no país. Nesse contexto é que foi criado o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), que tinha como objetivos incentivar o desenvolvimento, orientar, organizar e divulgar estudos nas áreas das Ciências Físicas e da Matemática. César Lattes foi seu primeiro Diretor Científico e, ao lado de outros físicos/as, como José Leite Lopes (1918-2006), Elisa Frota-Pessôa (1921-2018) e Neusa Amato (1926-2015), continuou a desenvolver pesquisas sobre detecção de partículas (TAVARES, GUIMARAES & VIDEIRA, 2022).
César Lattes faleceu em 2005 e foi um grande pensador de seu tempo, dedicado e apaixonado por seus temas de estudo. Atualmente, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão de cuja criação Lattes também fez parte, gere uma plataforma que reúne os currículos de grande parte dos/as pesquisadores/as que atuam no Brasil - a Plataforma Lattes. Ela começou a ser pensada na década de 1980, no âmbito do próprio CNPq e a partir da identificação de uma necessidade de se agrupar as produções de cientistas brasileiros/as. Lançada em 1999, e batizada em homenagem ao físico, a Plataforma Lattes passou a ser amplamente utilizada por esses estudiosos para o registro de sua trajetória científica.
César Lattes inspirou muitos pesquisadores de sua geração e das futuras e suas contribuições para o desenvolvimento e a consolidação de uma agenda de pesquisas na área da Física no Brasil é inquestionável. Mas a trajetória e atuação de nenhum cientista devem ser vistas descoladas de seus interesses e das ideias que eventualmente representaram nos contextos em que viveram. Lattes foi também uma pessoa de carne e osso, com suas experiências e convicções pessoais as quais refletiram diretamente em seu fazer científico.
-
Ronald Cintra Shellard Segundo Márcio Portes de Albuquerque (VIDEIRA e VIEIRA, 2022):
<cite>[...] O Brasil teve a honra de ver nascer aqui Ronald Cintra Shellard, um amigo, mestre e profissional que marcou muitas vidas e fez história por onde esteve, com sua personalidade e suas características particulares. Difícil encontrar alguém que o tenha conhecido e que não tenha, ao menos, duas ou três histórias para contar – o que, logo, nos faz perceber que não se ficava indiferente à pessoa dele [...] Mas é impossível falar do Shellard sem passar pela história da física de altas energias, por suas incursões nas diversas esferas da política, academia, pesquisa e dos relacionamentos humanos, olho no olho. [...]
</cite>
-
Niède Guidon A trajetória de Niède Guidon é um exemplo de determinação para alcançar o que se acredita. Sim, cientistas também têm suas crenças, sabia? Se olharmos para o caminho percorrido pela pesquisadora, ficam claras suas convicções na construção de uma sociedade mais justa e mais afinada com a natureza e a cultura que a cerca.
-
Zilton Andrade O médico patologista Zilton Andrade é um dos principais pesquisadores do Brasil em doenças endêmicas como esquistossomose e doença de Chagas. Um dos seus principais trabalhos é o estudo da modulação do granuloma na esquistossomose, que fez com o norte-americano Kenneth Warren. Trata-se da reação imunológica do organismo ao parasita causador da esquistossomose. Até hoje, o trabalho é usado como referência em inúmeros estudos a respeito de modulação imunológica. Zilton Andrade nasceu em 14 de maio de 1924, na cidade de Santo Antônio de Jesus/BA. Em 1950, formou-se em medicina; fez residência em patologia na Universidade de Tulane, em New Orleans (EUA). Trabalhou na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e foi chefe do serviço de patologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Bahia, atual Hospital Edgar Santos. Foi o primeiro diretor do Centro de Pesquisas Gonçalo Muniz e um dos fundadores dos mais importantes laboratórios de pesquisas da Bahia, entre eles o da UFBA. Faleceu em 22 de julho de 2020.
-
Wilson Teixeira Beraldo O médico e pesquisador Wilson Teixeira Beraldo foi co-descobridor da substância Bradicinina, em colaboração com Maurício Rocha e Silva e Rosenfeld. Por meio de suas pesquisas, demonstrou a liberação pelo corpo da Bradicinina nos choques anafiláticos e peptônico. A descoberta da bradicinina revolucionou os estudos sobre o controle da pressão arterial, inclusive os testes que deram origem ao captopril. A bradicinina é também uma das mediadoras do processo inflamatório. Wilson Teixeira Beraldo nasceu em Silivianópolis/MG, em 20 de abril de 1917. Em 1943, formou-se em medicina pela UFMG; tornou-se livre-docente em fisiologia pela USP e professor titular de fisiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da UFMG. Membro fundador da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), integrou o comitê de seleção de professores do Max Plank Institute da Alemanha e da Universidade de Buenos Aires. Foi consultor "Ad-Hoc" do CNPq e orientador do curso de pós-graduação em Fisiologia da UFMG, Fellow da Fundação Rockefeller e do British Council. Foi membro da Academia Brasileira de Ciência e da "The New York Academy of Sciences". Faleceu no dia 28 de julho de 1998, em Belo Horizonte.
-
Warwick Estevam Kerr O engenheiro agrônomo, geneticista e biólogo Warwick Kerr é considerado o maior especialista em genética de abelhas do mundo. Um dos seus principais feitos foi trazer ao Brasil a abelha africana, em 1956. Posteriormente, desenvolveu um novo tipo de espécie de abelha, denominada "africanizada", feita por meio de um híbrido das espécies europeia e africana, mais dócil e grande produtora de mel. Kerr ficou conhecido internacionalmente em 1950, quando realizou um trabalho inédito sobre a determinação de castas em abelhas do gênero Mellipona (sem ferrão). Professor da Universidade Federal de Uberlândia, Warwick Kerr tem 585 artigos publicados. Como engenheiro agrônomo, o destaque de suas pesquisas é a descoberta de um tipo de alface com 20 vezes mais vitamina A do que a do tipo comum. Essa hortaliça é usada de forma eficaz no combate da avitaminose. Nascido em Santana de Parnaíba/SP, em 9 de setembro de 1922, o cientista Warwick Kerr, tornou-se o primeiro brasileiro eleito membro estrangeiro da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em 1990. Além de primeiro diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp); foi reitor da Universidade Estadual do Maranhão e também, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Sociedade Brasileira de Genética. Faleceu em 15 de setembro de 2018.
-
Vital Brazil Vital Brazil Mineiro da Campanha, filho de Manuel dos Santos Pereira Junior, caixeiro viajante, que teve 7 filhos e costumava colocar nomes "inusitados" neles e com Vital, o primogênito, não poderia ser diferente. Vital porque nasceu no dia de São Vital, Brazil porque era brasileiro, e Mineiro porque nasceu em Campanha-Minas Gerais. Como não possuía recursos suficientes, Vital exerceu diversas profissões, entre elas: bedel de colégio, professor, redator de jornal, entregador e construtor de estrada de ferro, pois queria realizar o sonho de ser médico. Em 1892, Vital foi convidado a participar do projeto dos institutos bacteriológico, vacinogênico, de química cuja finalidade era a distribuição de medicamentos para atender ao estado de São Paulo. Em 1893, ele inaugurou o posto de inspetor de saúde, cujo objetivo era acompanhar e combater as doenças infecciosas que assolavam não só a capital, mas também os municípios do interior e do litoral de São Paulo. Também teve que lidar com surtos de febre amarela, varíola, cólera, entre outros.
Vital criou o Instituto Butantã e estudou os venenos das serpentes. Durante as epidemias de febre amarela, varíola e cólera do início do século, chefiou a comissão sanitária no vale do Paraíba e combateu a peste bubônica na cidade de Santos, contraindo a doença durante o trabalho. Foi chamado pelo Governo de São Paulo para ajudar a criar um instituto soroterápico que produzisse soros e vacinas que combatessem as epidemias causadas por mordida de serpentes. Com o apoio do Dr. Adolpho Lutz e com o conhecimento dos estudos do Dr. Calmette no Instituto Pasteur da Índia sobre soros antiofidicos, Vital fez os primeiros experimentos com os venenos das serpentes. Na fazenda Butantan, Vital Brazil começou as imunizações dos cavalos para fazer a vacina contra a peste bubônica e venenos das serpentes. Publicou seu primeiro trabalho sobre o envenenamento ofídico e demonstrou que o soro para o tratamento dos acidentes tinha que ser específico. Também produziu as primeiras ampolas de soro contra o veneno de jararaca e cascavel. Nasceu em 28 de abril de 1865, em Campanha, Minas Gerais. Aos 26 anos, ele entra para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, trabalhou como escrevente da polícia e professor para sustentar-se e custear seus estudos. Em 1919, ele foi convidado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro a criar um centro de pesquisas biológicas em Niterói e foi fundado, então, o Instituto Vital Brazil. Ficou conhecido como Dr. Brazil pela sua dedicação à saúde pública e pelo seu entusiasmo pelos estudos experimentais. Morreu em 8 de maio de 1950, no Rio de Janeiro.
-
Simão Mathias O químico Simão Mathias queria ser astrônomo, mas foi um dos quatro alunos da primeira turma do curso de química da recém inaugurada USP, em 1935. Foi também o primeiro doutorando em ciências da faculdade. Mathias foi fundamental para o desenvolvimento da USP, lutando para obter recursos para construir o primeiro laboratório de físico-química do país. Passou dois anos nos Estados Unidos, na Universidade de Wisconsin. Lá ele fundamentou sua ideia de como ensinar físico-química. Ao voltar, propôs a construção do laboratório da USP, inicialmente criando uma pequena oficina mecânica e treinando um técnico vidreiro. O próprio Mathias construiu os aparelhos e as células dielétricas. Foi assim que começou o ensino de físico-química em São Paulo. Em 1960, como chefe do Departamento de Química, organizou a centralização de todos os departamentos de química existentes na USP num único grande instituto. Nascido em São Paulo, em 26 de agosto de 1908, Mathias dedicou sua vida a construir um projeto de universidade. A instituição de um "espírito universitário" foi para ele uma preocupação constante. Foi da diretoria da SBPC e atuou com empenho na abortada tentativa de reforma universitária do final dos anos 60. No final da vida, fez parte do grupo de história da ciência do Departamento de História da USP. Faleceu em 25 de agosto de 1991.
-
Roberto Miguel Klein O botânico e ecologista Roberto Miguel Klein abandonou o celibato e dedicou boa parte de sua vida ao levantamento fitoecológico da costa atlântica do sul do Brasil, por meio de um catálogo de espécies de plantas; um trabalho que permitiu desenvolver conceitos sobre o manejo de florestas e controle de doenças como a malária. O início de sua relação com a ecologia foi o estudo sobre a transmissão da malária e de seu vínculo com a vegetação florestal onde se criam as bromélias, num projeto do Serviço Nacional de Malária. Com a pesquisa, descobriu-se que, das 89 espécies de bromélias existentes nessas matas, oito eram importantes para a criação de mosquitos transmissores de malária. Nasceu em 31 de outubro de 1923, no município de Montenegro (RS). Após concluir o Seminário, foi para Santa Catarina trabalhar com o estudo do relacionamento das bromélias ou gravatás com a proliferação de larvas dos mosquitos transmissores da malária. Cursou história natural na Universidade Católica do Paraná. Faleceu em 13 de novembro de 1992.
-
Roberto Cardoso de Oliveira O antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira é indigenista e etnólogo do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), autor de 12 livros, com diversas publicações no Brasil e no exterior, foi fundador do programa de pós-graduação do Museu Nacional/UFRJ, e da Universidade de Brasília. Também participou do início do programa indigenista na Unicamp. O indigenista estudou os Terena, em 1955, em seu primeiro trabalho de campo, que resultou na obra "Processo de Assimilação dos Terena". Trabalhou os conceitos de aculturação, baseados no marxismo e no conceito de fricção interétnica na relação índios e brancos. Roberto Cardoso demonstrou como os índios assimilam a cultura a que são expostos e que a etnia tem tanta densidade e realidade quanto a classe social. No caso das populações indígenas, o sistema que se cria é um sistema interétnico e não um sistema de classes. Foi membro honorário do Real Instituto de Antropologia da Grã Bretanha e Irlanda, Doutor Honoris Causa da UFRJ e Doutor Honoris Causa pela UnB. Entre as suas principais obras estão "Identidade, etnia e estrutura social" e "Sociologia do Brasil Indígena". Nasceu em São Paulo em 11 de julho de 1928 e faleceu no dia 21 de junho de 2006 em Brasília.
-
Ricardo Ferreira Ricardo Ferreira foi um dos químicos teóricos mais importantes do Brasil. Autor de uma obra científica significativa no campo da química teórica, pelo número de artigos e trabalhos publicados, Ricardo passou a dedicar-se à física, trabalhando no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Para o professor, a química é a ciência interdisciplinar por natureza. Devido à importância teórica e bibliográfica de sua obra, em 1988 foi publicado um número especial da revista Química Nova em sua homenagem. Seu trabalho de maior destaque foi "O cálculo das constantes de ionização dos ácidos oxigenados", sua tese de docência, devido à importância de sua aplicação teórica nas pesquisas de química inorgânica. Na década de 80, passou a estudar os aspectos eletrônicos da ação enzimática e da evolução molecular, além de investigações acerca da eletronegatividade. Nascido em 16 de janeiro de 1928 em Recife, começou o curso de química na Universidade de São Paulo e terminou-o na Universidade Católica de Pernambuco. Trabalhou na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no CBPF, no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), na Universidade de Colúmbia, na USP e no Earlham College. Participou da consolidação do Departamento de Química Fundamental da UFPE. Aposentou-se pela UFPE, onde se dedicou às pesquisas na área de físico-química. Faleceu em 30 de julho de 2013.
-
Paulo Freire Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife, Pernambuco, em 19 de setembro de 1921. Filho de um policial militar e de uma dona de casa, tinha dois irmãos e uma irmã. O sustento da família dependia de um tio, mas com a crise de 1929 os negócios foram afetados e isso os fez passar necessidades. Quando Paulo estava com 10 anos, a família se mudou para Jaboatão, área pobre a 19 km da capital (Recife). “Fiz a escola primária no período mais duro da fome, de uma fome suficiente para atrapalhar o aprendizado”. Paulo Freire ficou órfão de pai aos treze anos. Sua educação inicial deu-se com o ingresso no Colégio Oswaldo Cruz, em Recife, por meio de bolsa concedida pelo diretor da escola. Ele conseguiu o primeiro emprego em 1941, como professor no Colégio Oswaldo Cruz, o mesmo onde lhe havia sido concedida bolsa para cursar o ginásio. Ingressou na Universidade de Recife em 1943, para cursar direito, mas, ao mesmo tempo, dedicou-se também aos estudos de filosofia da linguagem. Desistiu da profissão de advogado após pegar sua primeira causa, onde para defender seu cliente, deveria exigir o confisco do material de trabalho de um jovem dentista, pai de família. Preferiu trabalhar como professor numa escola de segundo grau, lecionando língua portuguesa.
Em 1944, uniu-se em matrimônio à colega de trabalho Elza Maia Costa de Oliveira, de quem sempre obteve apoio e participação durante o período que ficaram casados, até sua morte no ano de 1986. Dois anos depois, em 1988, o educador casou-se com a também pernambucana Ana Maria Araújo, apelidada de "Nita". Ambas as esposas foram reconhecidas por Paulo como importantes em sua carreira, inclusive quando o educador dedicou o título de Doutor Honoris Causa recebido da PUC de São Paulo "à memória de uma e à vida da outra".
Em 1946, Freire foi indicado ao cargo de diretor do Departamento de Educação e Cultura do Serviço Social no Estado de Pernambuco, onde iniciou o trabalho com analfabetos pobres. Em 1947, foi nomeado diretor do Departamento de Educação e Cultura do Serviço Social da Indústria (Sesi) e ali trabalhou até 1957, com a alfabetização de jovens e adultos carentes e com trabalhadores da indústria. Este período foi fundamental para a sua formação.
Desenvolveu projetos de emancipação popular com adultos e trabalhadores da periferia urbana. Tentou a cátedra de Filosofia da Educação da então Universidade do Recife, mas não foi feliz. Em 1959, Paulo Freire passou no processo seletivo para a cadeira de História e Filosofia da Educação, da Escola de Belas Artes da Universidade de Recife, hoje Universidade Federal de Pernambuco, com a tese original ´Educação e atualidade brasileira´. Ali, nasceram as bases do seu pensamento pedagógico e filosófico.
A sua prática didática consistia na crença de que o educando melhor assimilaria o objeto de estudo fazendo uso de uma prática dialética com a realidade, em contraposição a uma educação bancária, tecnicista e alienante, assim por ele denominada. Neste contexto, caberia ao aluno escolher qual caminho trilhar, e não aceitar algo previamente construído, libertando-se de chavões alienantes e escolhendo, ele mesmo, o rumo do seu aprendizado. Paulo Freire defendia o diálogo com as pessoas simples, não só como método, mas como um modo de ser realmente democrático.
Em 1961, tornou-se diretor do Departamento de Extensões Culturais, da Universidade de Recife, o que lhe possibilitou realizar experiências com alfabetização de adultos, as quais levariam à construção do “Método Paulo Freire”, adotado primeiramente em Pernambuco, e que se tornaria um método inovador de alfabetização. Com isso, surgiram algumas experiências pioneiras, entre elas, a de alfabetizar, no prazo de 40 horas, 360 trabalhadores rurais em Angicos, no Rio Grande do Norte.
Em resposta aos eficazes resultados, o governo brasileiro, por meio de seu Ministério da Educação e Cultura, implementou o Plano Nacional de Alfabetização. Coordenado por Paulo Freire, o Plano previa a formação de educadores em massa e a rápida implantação de 20 mil núcleos espalhados pelo País, com a estimativa de alfabetizar cinco milhões de adultos. Como o “Método Paulo Freire” não se propunha a apenas alfabetizar, mas também a politizar, os educandos eram levados a perceber as injustiças que os oprimiam e a necessidade de buscar mudanças, através de organizações próprias que os representassem, o que fez com que passassem a ser vistos como ameaças. Por isso, o Programa foi extinto pelo governo militar em abril de 1964, menos de 3 meses após ter sido oficializado.
Por ousar e colocar em prática uma metodologia capaz, não só de instrumentalizar a leitura e a escrita dos iletrados, ou dos alfabetizandos, como ele preferia chamar, mas também de incitar-lhes a libertação, Freire foi acusado de subverter a ordem constituída e considerado traidor, tendo sido encarcerado por 70 dias. Em seguida, passou por um breve exílio na Bolívia e, posteriormente, se estabeleceu no Chile, onde trabalhou por cinco anos para o Movimento de Reforma Agrária da Democracia Cristã e para a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação. Depois disso, exerceu o cargo de assessor do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e do Ministério da Educação do Chile, onde desenvolveu programas educativos para adultos.
Em 1967, durante o exílio chileno, Paulo Freire publicou, no Brasil, seu primeiro livro: Educação como Prática da Liberdade, baseado, fundamentalmente, na tese “Educação e Atualidade Brasileira”, com a qual concorreu em 1959, à cadeira de História e Filosofia da Educação na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife. O livro foi bem recebido e Freire foi convidado a ser professor visitante da Universidade Harvard, em 1969. Depois de um ano em Cambridge, Freire mudou-se para Genebra, na Suíça, onde trabalhou como consultor educacional do Guiné-Bissau. Até o seu retorno ao Brasil, Freire fez viagens para mais de 30 países pelo CMI, prestando consultoria educacional e implementando projetos de educação voltados à alfabetização, à redução da desigualdade social e à garantia de direitos. Foi nesse período em que ele, um pensador brasileiro, implementou importantes projetos educativos em Guiné-Bissau, Moçambique, Zâmbia e Cabo Verde.
Depois de 16 anos de exílio, Paulo Freire voltou ao Brasil, em 1980. Lecionou em importantes universidades como: UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) e PUC/SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e foi, aos poucos, reconhecendo, reaprendendo e redescobrindo o país. De 1989 a 1991, assumiu a secretaria de Educação do Município de São Paulo. Seu mandato teve como premissa a recuperação salarial dos professores, a revisão curricular e, é claro, a implantação de programas de alfabetização de jovens e adultos. Dentre os destaques de sua passagem pela secretaria municipal de Educação, está a criação do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA), um modelo de programa público que consiste no apoio a salas comunitárias de Educação de Jovens e Adultos e que até hoje é adotado por numerosas prefeituras e por outras instâncias de governo.
Pedagogia do oprimido, escrita no exílio no Chile e traduzida para mais de 50 idiomas, é a obra mais marcante do educador, na qual expõe a filosofia de ensino baseada na igualdade entre homens e mulheres e na educação para a libertação: “Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação?”. Em abril de 1997, lançou seu último livro, "Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa", e em maio do mesmo ano, vítima de um infarto do miocárdio, Paulo Freire acabou falecendo. A Coleção Educador Paulo Freire, que pode ser visitada no Instituto Paulo Freire, na cidade de São Paulo, passou a integrar o Registo Internacional do Programa Memória do Mundo (MoW) em 2017.
Em vida e postumamente, o professor Paulo Freire foi condecorado com 48 títulos honoríficos. Em todo o mundo, cerca de 350 escolas e instituições, como bibliotecas e universidades, levam o seu nome como forma de homenagem. Em 2012, foi sancionado o projeto de Lei 12.612/12, que declara o educador Paulo Freire Patrono da Educação Brasileira. Ainda, segundo levantamento feito por um pesquisador da London School of Economics em 2016, a obra Pedagogia do Oprimido é o terceiro livro mais citado em trabalhos da área de humanidades no mundo. Até o ano desse levantamento, o livro de Freire já havia sido citado 72.359 vezes, estando à frente de pensadores como: Michel Foucault, Pierre Bourdieu e Karl Marx.
-
Paulo Emílio Vanzolini O zoólogo Paulo Emílio Vanzolini criou a teoria dos refúgios, a partir de estudos conjuntos com o geomorfologista Aziz Ab'Saber e com o americano Ernest Williams. Refúgio foi o nome dado ao fenômeno detectado nas expedições de Vanzolini pela Amazônia, quando o clima chega ao extremo de liquidar com uma formação vegetal, reduzindo-a a pequenas porções. Assim formam-se espaços vazios no meio da mata fechada. O zoólogo redigiu a lei que criou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e organizou o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). Sob seus cuidados, a coleção de répteis e anfíbios da instituição passou de 1200 para 230 mil exemplares, e a biblioteca, montada com o dinheiro que ele ganhou com a música, é reconhecida como um dos mais completos acervos de herpetologia do mundo. Autor da música "Ronda", Vanzolini compôs outros sucessos como "A volta por cima". Nascido em São Paulo em 25 de abril de 1923, embora aposentado, Vanzolini continuou a ir ao museu todos os dias, inclusive aos sábados. Lá, ele fazia suas pesquisas, consultava livros e desenvolvia os próprios programas de computador que usava. Faleceu em 28 de abril de 2013, em São Paulo. Foi agraciado com a Grã Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, foi também premiado pela Fundação Guggenheim. Em março de 2013, recebeu o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) pelo conjunto da obra.
-
Otto Richard Gottlieb O químico Otto Richard Gottlieb dedicou sua vida à preservação e ao estudo do patrimônio vegetal brasileiro. Com mais de 700 trabalhos publicados, Gottlieb sempre buscou uma resposta química para algum problema biológico. Estudou, entre outras espécies, a lauráceas e a miristicáceas. Seus estudos sobre a canela trouxeram ao conhecimento público algumas aplicações medicinais, fitoterápicas e culinárias da espécie, além das propriedades aromáticas utilizadas na indústria cosmética. Em 1967, com financiamento da Fapesp, Gottlieb criou o laboratório de Química de Produtos Naturais no Instituto de Química da Universidade de São Paulo. Integrando a química à biologia, à ecologia e à geografia, Gottlieb desenvolveu uma nova área de estudo no campo da química de produtos naturais: a sistemática bioquímica das plantas, também chamada de quimiossistemática ou taxonomia química, que consiste na identificação de grupos de substâncias químicas presentes nas plantas. Nasceu em Brun, República Tcheca, em 31 de agosto de 1920. Em 1939 chegou ao Rio de Janeiro, com a família, após passar pela Badingham College, na Inglaterra. Filho de mãe brasileira, Gottlieb pôde escolher, aos 21 anos, por sua nacionalidade: optou pela brasileira. Com formação pela UFRJ, Gottlieb trabalhou em diversas indústrias químicas do país e exterior, como a UFMG, Instituto de Química Agrícola, UnB e Universidade de Indiana (EUA). Estudou as plantas da Amazônia, seus extratos brutos, as substâncias que podem ser isoladas e a estrutura delas. Faleceu em 19 de junho de 2011, no Rio de Janeiro.
-
Oscar Sala O físico Oscar Sala trabalhou em pesquisas no campo dos raios cósmicos, obtendo a primeira medida do coeficiente de absorção das radiações cósmicas geradoras dos chuveiros penetrantes - estudo relativo à energia atômica. Desenvolveu o projeto do acelerador eletrostático encomendado pela USP, do tipo Van der Graaf, o primeiro a utilizar feixes pulsados para estudos sobre reações nucleares com nêutrons rápidos. Mais tarde, desenvolveu novo tipo de voltímetro diferencial para altas tensões. Todos estes estudos são utilizados na física nuclear. Oscar Sala também participou da construção de transmissores de rádio portáteis para o exército, durante a Segunda Guerra, trabalhando no Departamento de Física da USP. Outro trabalho de destaque do físico foi a inovação da técnica para utilização dos osciloscópios eletrônicos em medições de vidas médias dos nuclídeos isômeros - o que facilitou os estudos relacionados à físico-química. Foi responsável pelo Acelerador Pelletron no Instituto de Física da USP. Nasceu em 26 de março de 1922, em Milão, Itália. Veio cedo para o Brasil, onde obteve a nacionalidade brasileira. Participou do Grupo Científico Internacional de Trabalho sobre Dados Nucleares, organizado pela Agência Internacional de Energia Atômica, em Varsóvia e Tóquio. Integrou o grupo de trabalho Brasil-Estados Unidos, organizado pela National Academy of Sciences e pelo CNPq. Foi diretor-científico da FAPESP, presidiu a Sociedade Brasileira de Física, a SBPC, a Associação Interciência das Américas e outras entidades. Faleceu em 2 de janeiro de 2010.